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sexta-feira, 17 de maio de 2013

REDES URBANAS


            A industrialização, junto à crescente urbanização e evolução dos meios de transporte e comunicações leva a definições de lugar central e mercado (área de abrangência do lugar central), com isso acaba-se criando uma hierarquia da rede urbana, dado que as localidades menores não oferecem polarização suficiente. Surgem daí as redes urbanas com centros funcionalmente articulados, de maneira que, quanto mais elevada a classe da cidade, mais especializados e raros são seus serviços e maior a sua área de abrangência. Uma rede onde os papéis de cada localidade são definidos pelas grandes corporações e principalmente pelo Estado, pois para este, a centralização (a criação de regiões metropolitanas) significa um controle maior sobre o território. Assim sendo, a rede urbana é reflexo e condição para o capitalismo e, para ser devidamente compreendida, precisa ser analisada do ponto de vista histórico e do prisma atual. Historicamente, as redes urbanas podem ter base na rede de transportes. Entretanto, em sua gênese, assim como nas demais redes existentes, encontra-se a divisão territorial do trabalho, onde se definem elementos fundamentais: fluxos (interações entre os nós) e fixos (pontos que determinam essas interações.
            Esta concepção vai de acordo a Geografia Teorética, na qual a natureza esta inserida em um espaço geométrico, matemático, hierarquizado e com finalidades voltadas aos interesses dos Estados. O IBGE apresenta através do REGIC resultados de pesquisas sobre a rede urbana brasileira, onde principalmente se mensura a rede de influencia das cidades e sua classificação funcional. A nível global, o Brasil possui duas cidades mundiais, São Paulo e Rio de Janeiro que participam de uma rede de cidades de escala global.
            O fator globalização ajudou não somente as redes mas também acresceu grandes facilidades às pesquisas sobre o assunto, formando inclusive redes de pesquisas e redes afins que não necessariamente se tocam. A rede de cidades entra no cenário de pesquisa como a sobreposição de todas as outras redes (inclusive redes ilegais como o tráfico), onde as cidades se posicionam como nós. É uma rede que não depende mais da contiguidade espacial, onde a integração dos territórios gerada pela globalização, beneficiam os circuitos propiciando maiores fluxos de rede.
            Em observação mais detalhada, percebe-se que as redes estão sempre em transformação, sendo o produto, meio e condição do território que para o Estado significam o controle do mesmo. Em uma rede, quanto maior o tamanho das propriedades, menor será o numero de localidades expressivas, de forma que o tamanho das propriedades chega a gerar o bloqueio da dinâmica econômica de uma rede. Já em analise sócio-espacial, as redes devem ser vistas como produto das relações sociais, não são neutras pois refletem as relações que se traçam neste território.
            A incorporação e refuncionalização de áreas, alem de uma mais efetiva divisão territorial do trabalho nos leva a um quadro de maior complexidade funcional dos centros urbanos com localidades que exercem funções centrais e localidades que exercem especializações produtivas. Assim, ainda existe a hierarquia das cidades, mas através das redes que a sustenta, é possível que haja interações que suplantem essa hierarquização, permitindo fluxos sem intermediação entre localidades de maior distancia entre si, integrando centros regionais sem interação com as grandes metrópoles.
            Destacam-se seis tipos de redes:
Rede solar: um nó central vincula nós menores;
Rede dendrítica: localização excêntrica do centro nodal;
Rede christaleriana: há centro nodal e centros menores, rede caracterizada pela hierarquização dos nós.
Rede axial: disposição linear dos nós, associada geralmente à uma única via de trafego linearmente disposta;
Rede circular: nós dispostos em circuito circular sem um centro nodal;
Rede de múltiplos circuitos: varias ligações possíveis sem que haja necessariamente a intermediação dos nós entre elas.
Rede christaleriana ou esquema clássico.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Cidade Brasileira 1870-1930 - Sintese


Cidade Brasileira 1870-1930

Introdução
O período histórico de 1870 a 1930 marca a transição do Brasil rural para o Brasil urbano industrial, as transformações que se desenvolveram neste período nortearam as modificações do cotidiano urbano no século XX. O objetivo está na análise de algumas categorias, que permitem que compreendamos melhor essa época de transição do Brasil rural para o Brasil urbano-industrial.

Mercantilização: a formação de mercado urbano de terras

No período de 1870 a 1930 é marcado pela entrada dos processos capitalistas modernos na mercantilização das terras urbanas, sentido principalmente nas cidades que sofriam maiores assedio de movimentos imigratórios então dispunha de demanda de população a procura de moradias e terras urbanas, terras essas, que agora passam a serem tradas como ativo financeiro. Surgem empresas capitalistas com o objetivo de produzir e comercializar lotes urbanos, ainda com participação do capital bancário, para financiamento de grandes loteamentos destinados tanto a burguesia ascendente quanto a classe proletária também em crescimento.
O comercio de terras supera o pequeno latifúndio que era dividido em lotes e passa a ser intensamente explorado por grandes empresas capitalistas de comercio de terras com apoio do capital bancário.
Neste período também surgem os primeiros indícios de inclusão precária, quando loteamentos destinados à classe burguesa passam a receber investimentos em infraestrutura do Estado, enquanto os loteamentos destinados ao proletariado ficam a espera da infraestrutura que demora a chegar e quando chega já não atende ao loteamento agora urbanizado por mais ocupações, em um ciclo de crescimento e abandono.
Além da preferência do grande capital imobiliário pelo latifúndio, surgiram investimentos mais modestos de capital imobiliário associado ao capital industrial para construção de moradias em vilas e loteamentos onde habitavam os trabalhadores da indústria.

Crise e superação do pensamento sobre as cidades: do higienismo ao sanitarismo.

No que se refere a estudos higienistas e a salubridade pública, os núcleos urbanos sofreram várias alterações. De outro modo, a criação de novas cidades foi guiada por várias preocupações. As considerações do higienismo obtém, nesse período, uma grande evolução e do higienismo passa a ser considerado sanitarismo.
O conceito de Higienismo, baseado em teorias de Hipócrates, o médico inglês Thomas Syndenham demonstra a relação entre a deterioração do meio natural e o surgimento dos surtos epidêmicos. Dessa correlação, obtemos um desenvolvimento teórico que atribuí ao meio ambiente, e em destaque, à corrupção do solo, da água e do ar, um papel importante na explicação da salubridade pública. Uma das epidemias que mais causou consequências foram os miasmas, causadas da decomposição de matérias orgânicas. De forma que assegurasse a saúde pública e trouxesse melhores condições às cidades, os médicos iniciaram estudos da origem dos miasmas, de forma que fosse identificado o foco e enfim, a eliminação das epidemias. Alguns desses estudos eram chamados “topografias” e “geografias”, dos quais buscavam a localização da epidemia.
Porém estudos e análises dos médicos não foram suficientes para a implantação de meios objetivos de eliminação das epidemias e melhores condições na salubridade. Surgem então, os engenheiros, que traziam recursos e técnicas eficazes, comprovadamente capazes de solucionar grandes problemas da salubridade.
Durante o século XIX, período em que se baseia o higienismo, os médicos da época começaram a dar soluções para tentar acabarem com as epidemias, as soluções eram as seguintes: aterrar mangues, pântanos e brejos; arrasar colinas que impediam a livre circulação dos ventos; alargar ruas existentes e exigir que as novas se conformassem aos novos padrões; afastar as construções uma das outras; exigir que todos os cômodos das habitações tivessem janelas...
                Mas com o tempo os médicos chegaram à conclusão q só essas recomendações não eram suficientes para acabar com as epidemias. A revolução bacteriológica pasteuriana, que sacudiu a pesquisa médica a partir de 1880, desacreditou rapidamente os postulados do higienismo e, especial a teoria dos miasmas. Então o pensamento mudou agora as doenças estavam diretamente ligadas com os micro-organismos transmitidos aos seres humanos e não ligados ao meio ambiente como se acreditava.

 Intervenção: O tripé sanitarismo-circulação estética

Com a crise do higienismo no início do século XX, o verbo higienizar foi substituído na temática urbana por sanear. Associada a nova técnica surge a preocupação estética da cidade, deixando para o passado os aspectos coloniais rompendo de forma definitiva para ingressar no futuro com suas formas, cores e designers arrojados da época. A cidade de Belo Horizonte foi projetada e inaugurada em 1897, não sofreu a crise, pois para sua construção houve um norte sanitarismo-circulação-estética. Diferente, a capital do Rio de Janeiro era uma proposta de sucesso para a implantação do projeto e coube aos engenheiros da época provar que o tripé proposto daria certo.
            Os engenheiros tem um papel fundamental nesse contexto histórico, antes de 1930 apesar de existirem planos denominados por gerais, porém são de fato setoriais e desconectados. A partir de 1930 e após o Plano Agache no Rio de Janeiro houve o desenvolvimento e verdadeiramente um plano integrado de desenvolvimento urbano do país. O objetivo principal da cidade era atender as necessidades do progresso e desfrutar de todas as vantagens oferecidas pelo mesmo. No entanto, existia um preço a ser pago e seu valor era alto, todavia os planejadores e administradores estavam contentes em pagar, entretanto o custo não era apenas financeiro, no novo gasto estava inserido o meio ambiente que não agregava valor muito menos comiseração. Teve não apenas uma eliminação da paisagem herdada como também a paisagem natural sem nenhum escrúpulo, preocupação ou até discernimento dos atos.  O que sobrou da memória urbana se transformou em mercadoria e hoje tem valor histórico e estético que se agrega comercialmente.
O controle e descontrole do espaço urbano
Para entendermos o processo de construção do espaço urbano, e as normas impostas para a construção das moradias destaco um trecho do livro INDÚSTRIA, TRABALHO E COTIDIANO: Brasil – 1889 A 1930, DECCA, 6ª Edição, 1995.
A habitação
“Desde o final do século XIX o operariado urbano-industrial, congregado nos bairros, populares e industriais, habitou pobres e exíguas moradias, muitas vezes coletivas nos vários núcleos e centros urbanos brasileiros. Essas moradias operárias sempre foram consideradas insuficientes e inadequadas.” (DECCA, Pág.47).
(IBIDEM, P. 46-7 apud DECCA, 1995) “Há ainda a casinha, como prédio independente, com frente para a rua pública e apenas considerada cortiço pelo seu destino e espécie de construção. Pequena e insuficiente para a população que abriga não oferecem garantia alguma pelo que respeita à higiene. O soalho sem ventilação e asentado sobre o solo, o forro sem ventilador, os cômodos pequenos e ainda subdivididos por biombos que os fazem ainda mais escuros, as paredes sujas e ferido o reboco que deixa perceber a má qualidade da alvenaria.”.
Na segunda metade do séc. XIX o controle do espaço urbano pelo Estado deu um salto, devido ao pensamento higienista o qual nasceu com o liberalismo na primeira metade do séc.XIX, quando o governo começa a olhar melhor para a saúde de seus habitantes. Um relatório da Comissão do Município de São Paulo afirma:
“É preciso cuidar da unidade urbana, a habitação, não já da habitação privada, mas daquela onde se acumula a classe pobre, a estalagem onde pulula a população operária.” (São Paulo – Município, ‘Relatório da Comissão... ‘, in Relatório do Intendente Municipal, p. 43 apud DECCA, 1995 p.48).
Contudo o modelo urbano das colônias sofreu uma grande mudança, pois esse modelo convivia apenas com limites entre a casa e a rua. Com o higienismo normatizações foram criadas. Por exemplo, no período dos anos 20 as habitações então deveriam ter janelas, recuo entre a rua e a casa, planta de casa e saneamento básico.
“Em São Paulo, já em 1893, a habitação do proletariado fabril e urbano chamava a atenção do poder público municipal. Nesse ano uma Comissão de Exame de Inspeção das Habitações Operárias e Cortiços fazia uma visita no Distrito de Santa Ifigênia, investigando as condições higiênicas das moradias operárias. Tal visita e exame eram justificados em função das epidemias que corriam na capital.” (DECCA, 1995, p.48).
O controle dessas normas era feito a partir dos engenheiros civis que trabalhavam para o Estado. A pessoa que quisesse construir deveria pagar taxas e contratar engenheiros para fazer a planta da sua casa, e como se não bastasse o morador ainda tinha que pedir permissão para habitar a sua casa.
Entretanto, o crescimento demográfico aumentava a cada dia e logo a situação saiu do controle, pois a infraestrutura fornecida pelo Estado tornou-se estagnada. Somado a isto, os habitantes muitas vezes não tinham condições financeiras para arcar com os custos de uma construção seguindo às normas; surgem e crescem então, consequentemente, favelas como as do Rio de Janeiro e Recife.
Nesse mesmo período surgiram loteamentos urbanos causados pela atração que as cidades tinham para trabalhadores, isso alterou a paisagem das grandes cidades.

ABREU, Mauricio de Almeida, in SPOSITO, Maria Encarnação de Abreu, Urbanização e Cidades, Presidente Prudente, 2001, paginas 35 a 44.

A cidade no Brasil (1930-1980) - fichamento


  A cidade no Brasil (1930 a 1980)

       As transformações na política que ocorreram neste período foram de fundamental importância a configuração das cidades, ocorreram duas ditaduras que perduraram por metade do período mencionado. Na economia o estado que já tinha papeis importantíssimos como o de gerir o território,sendo ele quem cria e executa leis, impõe regras e as fiscaliza,neste período ele se firma no papel de planejamento, com obras em infra estrutura, principalmente no que favorece o crescimento da atividade industrial, e assim muito pouco investe no social, ( saneamento básico: água potável, rede de esgoto, etc. ), e em terceiro destacamos a dinâmica demográfica, que com o crescimento industrial, há também um aumento no tamanho e no numero das cidades, e dessa forma o predomínio da população urbana sobre a rural, sendo que a principal atividade econômica é a industrial, que é efetivada nas cidades.
       As mudanças neste período foram continuas, e foram principalmente no papel e na própria estrutura do estado brasileiro, este passando a ter mais poder sobre os setores econômicos dentro do seu território, isto com a derrota ainda parcial das oligarquias dominantes. Foram estabelecidas a partir dos anos trinta condições para um processo articulado por meio de instituições políticas e econômicas, em que se consolidaram novos valores sociais e culturais, de características urbanas. Nos anos trinta e quarenta foram adotadas no estado medidas econômicas e realizações institucionais, que constituem uma nova fase nas relações político-econômica , isto se deu visando o fortalecimento do crescimento econômico tendo como base o capital nacional, e de outro lado a abertura de mercado, política cambial, dando prioridade e valorizando a moeda nacional, facilitou também as importações e as remessas de lucros por parte das empresas estrangeiras que se deu em um desenvolvimento econômico dependente. Pretendeu-se em primeiro superar a dependência com a nacionalização das decisões sobre a política econômica, e em segundo realizar o desenvolvimento por meio das condições de dependência. É importante saber que as duas tendências estiveram sempre presentes neste período, em que se buscava romper com a dependência, e em que essa dependência era necessária a economia. O urbano se impondo sobre os interesses que se enraizaram na economia agrário-exportadora, e assim estabelecendo o predomínio da cidade sobre o campo.
       Todas as transformações ocorridas fez com que houvesse um aumento da população das cidades, ou seja a concentração urbana, e isso teve como consequências mudanças econômicas, sociais e políticas. Expandia-se os setores terciários, a industrialização, e aumentava também a classe media, o proletariado e a burguesia industrial, isso quantitativa e qualitativamente. A medida que se expandia a divisão do trabalho, surgiam outros interesses econômicos, e quanto mais se expandia a sociedade urbana, tornava-se também mais complexa e diversificada, e assim se fortalecia como poder e exigia do poder publico um olhar com mais veemência as necessidades da cidade, dessa forma o poder publico se deflagrou com novos problemas, que eram muitas vezes difícil De se resolver. Sendo assim não podemos olhar a urbanização como algo que possa ser medido em termos puramente quantitativos, mais principalmente como processo, e saber que deve existir mudanças qualitativas na estrutura.
        As frequentes crises ocorridas na economia primaria exportadora ( borracha, açúcar, café, mineração), as crises políticas ( revolução de 30, estado novo, deposição de Vargas e redemocratização), a crise mundial ( depressão econômica de 29 a 33 e a segunda guerra mundial) revelaram os limites do modelo político e econômico vigente até os anos trinta. De outro modo, o surgimento do setor industrial, a expansão do setor terciário, a urbanização crescente e concentrada nas principais cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador, Porto Alegre e Belo Horizonte, a diversificação e complexidade da divisão social do trabalho e as classes sociais que se tornaram mais configuradas e representativas, puseram em evidência as possibilidades do sistema econômico e político Brasileiro.(apud. IANNI, 1979: 59/110).
      A urbanização tem na década de quarenta mudanças em seu padrão, sendo que houve aumento no numero de cidades e também na urbanização, porem a partir deste momento permaneceram constante, tanto o aumento do número de cidades, como no aumento da população nas cidades, na década de quarenta 70% da população Brasileira vivia no campo, mas a partir deste período a industrialização- urbanização torna-se o principal agente na modernização do país fazendo com que estes números mudassem, pois a cidade se tornou mais atrativa, visto que o campo já não suportava a população que La vivia, pois a modernização no campo comandada pela cidade havia tornado inútil tanta gente trabalhando.
“O desenvolvimento de base urbano-industrial constituem suporte da ‘modernização conservadora’, que produziu grandes transformações na produção, na divisão do trabalho social entre setores urbanos em expansão e oligarquias rurais e na conformação do território, em quanto atividades anteriores, de caráter artesanal e domestico, passaram a ser progressivamente marginalizadas”(apud.Davidovich, 1995, p. 79-80).   
E houve então a integração do território nacional por meio de construção de redes rodoviárias, fazendo com que produtos fabricados no centro sul ajudassem na destruição das pequenas fabricas e dos artesanatos das vilas e povoados.
Nos anos cinquenta, no governo JK aconteceu uma sistematização no programas de metas visando transformações na economia brasileira, transformações essas de grande impacto no setor industrial do país, pois o estado passa ter uma ação mais ampla, para a implantação de uma estrutura industrial integrada, em que se da no aumento no numero de trabalhadores urbanos.
 O período dos anos 50 inicia uma fase que é qualitativamente distinta na economia brasileira, onde tanto o caráter do estado quanto o que é a relação entre o estado e o urbano na economia e na sociedade brasileira constituem temas abertos para os quais não se tem ainda respostas muito consistentes, o que se pode dizer, em linhas muito geris, é que o período dos anos 50, sobretudo a partir do período Kubitschek, instala de golpe no Brasil o capitalismo monopolista. (apud.OLIVEIRA, Francisco de. O estado e o urbano no Brasil, p.20).  
        A atividade industrial tem uma consolidação em seu crescimento a partir de meados dos anos cinquenta, e isso impulsionado pelo programa de metas, que tinha como objetivo reformulação a estrutura de base, descontente, passando a uma interdependência com o capitalismo mundial. Com a indústria mais consolidada, a cidade continua aumentando o seu poder atrativo sobre a população, sendo que a indústria se tornara a principal atividade econômica e assim houve um aumento no índice de urbanização, que passa de 26,35% em 1940, para 56,80% em1970. Porem a industrialização não pode ser vista como o único fator de urbanização. Pois esta causou grande impacto com atração mais também como expulsão, visto que as modernizações ocorridas no campo, como por exemplo, em áreas especificas do país em especial o sudeste, sul e em parte do cerrado no centro-oeste causaram o êxodo rural, fazendo com que varias famílias de identidades rurais se visem obrigadas a migrarem para as cidades e se transformarem em proletariados, consolidando-se assim as tendências de urbanização da sociedade Brasileira no período que se da na segunda metade da década de cinquenta ate a década de sessenta. Desde os anos cinquenta a indústria com a produção de bens duráveis, indústria automobilística, petroquímica, metalúrgica e eletrodoméstica, fez com que ocorressem fluxos migratórios internos; sendo assim ocorreu durante décadas um fluxo migratório que fornece Mão de obra para as áreas concentradas que estivessem passando por um desenvolvimento econômico, fazendo com que o crescimento urbano fosse de maneira desigual. A industrialização foi muito importante para a urbanização Brasileira, mais não pode ser vista como fator determinante a mesma, pois há outros fatores muito importantes que contribuíram para a urbanização do Brasil, esses fatores são modificações ocorridas no campo. A modernização, a mecanização e o latifúndio em algumas áreas geraram desempregos e lutas pela terra, pois aqueles que não conseguiam alcançar tais modernizações eram obrigados a sair do status de  produtor,  e assim tinham de lutar para se manter encima da terra, onde poderiam cultivar seu próprio alimento,porem eram obrigados a vende-las, pois não era viável continuar com a terra sem os meios para produzir. Com essa necessidade de se produzir mais e sem os meios para isso  houve a estagnação causando a luta pela sobrevivência, visto que os proprietários tentam a todo custo se manter em suas terras, porem sem condições para se adequar as novas formas de produção, sendo assim esta é uma luta já perdida. Desse modo  tanto a modernização, a mecanização, o latifúndio como a estagnação resultou no êxodo rural.
       A urbanização no Brasil aconteceu de forma desigual, sendo que as políticas publicas priorizavam os investimentos em infraestrutura com o objetivo de suprir as atividades industriais, que predominavam de maneira concentrada na região centro sul.
       Em termos do crescimento populacional urbano a configuração territorial da urbanização manteve as grandes linhas desenvolvidas principalmente a partir dos anos 60, caracterizando-se particularmente:
Pela importância da concentração urbana, que envolveu ainda expressivo crescimento relativo demográfico entre 1970 e 1980, mostrando o ajustamento da população a condições percebidas como as de maiores oportunidades econômicas e sociais:
Do nível metropolitano, cuja participação relativa no total do pais passou de 25,5%  para 29,0%, a despeito de diferenciações flagrantes entre são Paulo e rio de janeiro, fortaleza e recife, e outros exemplos:  
Das aglomerações urbanas abaixo desse nível, principalmente das situadas em áreas de maior dinamismo industrial (exemplos das de campinas, são Jose dos campos, americana em são Paulo, de Ipatinga em minas gerais) ou de capitais interioranas, como Teresina no Piauí, sem falar de Brasília no distrito federal, e Goiânia em Goiás. (apud. DAVIDOVICH, Fani. Urbanização brasileira: tendências, problemas e desafios p.12).

       A população brasileira em 1960 correspondia a 71,0 milhões de habitantes, a população rural neste período ainda era maioria, porem a população urbana crescia a passos longos, e com 32,0 milhões de habitantes correspondia a 45,5% da população total do país. Comparadas a décadas anteriores veremos que a população urbana obteve aumento considerável, e na década de setenta viu-se claramente o crescimento superior da população urbana sobre a rural, pois nesta década a população urbana superou a rural, dos 94,5 milhões de brasileiros, 56,8% moravam na cidade, ou seja a cidade concentrava uma população de 52,9 milhões de habitantes. Porem este crescimento populacional se deu em mudanças socioespaciais em que a indústria tida como principal responsável a urbanização, não conseguiu suprir todas as necessidades de trabalho do momento, fazendo com que as desigualdades sociais aumentassem.
       A urbanização no Brasil ’deu certo’ para o crescimento econômico pretendido. Entre 1945 e 1980, o PIB aumentou em mais de dez vezes, o incremento da indústria alcançou 9% ao ano e os engajamentos nesse setor passaram de 275 mil em 1920 para 11 milhões em 1980”. (apud. DAVIDOVICH, 1995, p.80).
       Uma crise se instala nas cidades nos anos sessenta, porem não se pode dizer que esta crise é fruto da urbanização, e sim dos meios para criação de infraestrutura urbana, esta infraestrutura estava dirigida no sentido de expandir o crescimento industrial, que se deu de forma tardia, atendendo uma pequena parte da população, fazendo com que aumentassem e surgissem mais problemas urbanos, pois os recursos eram destinados a expansão capitalista, e não haviam investimentos que atendessem as demandas sociais, sendo assim, quanto mais cresciam as cidades, mais aumentava a concentração de renda, causando um crescente empobrecimento das pessoas que viviam nas cidades, pois só havia emprego para uma parcela daquela população. O BNH foi criado para atender as políticas de moradia, pela oferta de habitação popular, e saneamento, mais ele não conseguiu alcançar o objetivo do qual lhe foi imposto, e isso em 20 anos de existência.
       “de 4,5 milhões de unidades financiadas entre 1964 e 1985, somente 1,5 milhão (33,3%) foram destinadas aos setores populares. Sendo que os atingidos pelos programas alternativos (remunerados com 1 e até 3 salários mínimos) foram contemplados com apenas 250 mil unidades. O que significa 5,9% do total. Alem disso, a política habitacional teve, na pratica, um caráter ‘redistributivo ás avessas’, pois se baseou num sistema financeiro abastecido de capitais sub-remunerados oriundos de pequenos poupadores, cadernetas de poupança, e de recursos dos assalariados, do FGTS”. ( apud.RIBEIRO e AZEVEDO. 1996, p.13-14).   
          A infraestrutura urbana obteve no período em questão um grande desenvolvimento, foram efetivadas grandes obras principalmente nos setores energético e telecomunicação, estes foram realizados com investimentos de verbas vindas diretamente do estado, e com isso fortaleceu o mercado interno por meio de criação de postos de trabalho, principalmente sem Mao de obra qualificada, estes eram gerados na construção civil impulsionado pelas grandes obras, como a hidroelétrica. Se tratando de infraestrutura urbana pouco foi investido como em saneamento básico, em saúde e educação, pois estes investimentos não estavam ligados diretamente ao sistema produtivo.
As políticas publicas de 1930 a 1980 esteve sempre na direção de atender o processo de reprodução do capital, porem essas políticas não foram suficientes, pois se considerarmos as pressões demográficas que se instalavam em partes especificas do território, o acesso aos serviços públicos se deu dessa forma em um grande problema que junto aos efeitos causados pela políticas sobre os desequilíbrios regionais e ambientais não foram resolvidos. Olhando através do processo veremos que a urbanização da sociedade brasileira é determinada, e representa a divisão do trabalho e em cada momento com uma modalidade especifica, e até os anos oitenta determina a divisão do trabalho entre cidade e campo. A cidade como lugar onde se tem relações intensas de produção e de consumo não apenas econômicos, mas também de poder, fazendo com que haja o crescimento populacional, de atividade econômica e da pobreza urbana, pois as indústrias não ofertavam emprego aquele contingente populacional. Assim a cidade aparece como o local da exclusão, onde as classes dominantes fazem com que a pobreza seja vista como a causadora de todo mal existente na cidade, e também impedem que se tenha uma sociedade justa e democrática.
       As cidades são vistas como o lugar da exclusão, do crime da violência, e os pobres são vistos como os causadores desses males. Porem e preciso nos determos para o momento concreto da historia em que a cidade passa a ser vista dessa forma, pois nem sempre se teve essa visão da cidade, pois devemos levar em conta o como essa violência foi produzida, e porque vem sendo denominada violência urbana. É a partir dos anos oitenta que as classes dominantes colocam os pobres como os causadores da violência urbana, e isso acontece agora com mais clareza, visto que a pobreza é cada vez mais colocada como a causa da violência. Esse tipo de visão nos da a ideia de que se mudar para um outro lugar, principalmente se for um pais de primeiro mundo os problemas estarão resolvidos, pois nesse pais desenvolvido não terá os causadores, que são eles os moradores de rua, os sem-teto os moradores de cortiço e os favelados, ou seja todos aqueles que estão fora do Brasil globalizado, essa visão esta na analise feita pela mídia e pelas classes de elite, para eles o Brasil estaria livre dos problemas se na houvessem essas classes marginalizadas.
      A cidade é o lugar onde se da as relações de produção e de poder, é o lugar de consumo de concentração, é o lugar do consumo não só de objetos mas também de ideias, ou seja é o lugar das possibilidades, é onde cada integrante contribui com a sua produção, sendo assim o dever dos geógrafos é destacar a cidade nesse sentido, levando em conta as relações e a produção na cidade, em que todos os indivíduos ali presentes participam desse processo, e assim contrapor a essa visão de que a cidade é o lugar da exclusão, do crime, em que os pobres são os culpados. A cidade é o lugar das construções, das diversas relações, é onde o homem exerce o poder sobre o homem constantemente. As transformações de 1930 a 1980, ocorridas na política, na economia e na dinâmica demográfica do pais foi de fundamental importância, em termos principalmente de organização, pois as políticas neste período deu ao o pais um novo ritmo de crescimento, na economia houve um grande desenvolvimento das industrias, sendo estimuladas pelas políticas de infraestrutura, e na dinâmica demográfica a população urbana ganhou força, em quantidade e em qualidade, tornado-se mais complexa e diversificada. O crescimento das cidades no Brasil foi desigual, em termos sociais e regionais, pois este ocorreu de forma mais acentuada em regiões com um maior desenvolvimento econômico, e dessa forma, vemos hoje regiões com um poder financeiro muito grande, e outras com uma pobreza avassaladora, porem nessas regiões que detém um poder econômico maior, também apresentam desigualdades, ou seja, essas regiões também apresentam em sua sociedade  grandes desigualdades sociais e econômicas. Todos os processos relacionados a cidade, ocorridos nos momentos históricos do Brasil, foram importantes para a urbanização, porem, os processos ocorridos no período de 1930-1980 foram fundamental a configuração urbana existente.

Oliveira J.A. Meio século de transformações e permanência. A cidade no Brasil (1930-1980). In: SPOSITO, Maria Encarnação Beltrão, urbanização e cidade perspectivas geográficas; org. presidente prudente (S.N) 2001.

Urbanização e Classes Sociais - Fichamento


A cidade surge a partir do momento que o campo passa a produzir o excedente alimentar que pode atender à demanda da cidade. Por não produzir alimento para seu próprio sustento, a cidade é dependente do campo que, por sua vez, sendo produtor de seu próprio sustento, pode existir independente da cidade. Alem desta dependência do campo, a cidade também se caracteriza pela concentração de poder e pela clara distinção entre classes sociais.
                Mesmo o campo sendo o precursor e mantenedor da cidade, torna-se também dependente dos serviços recebidos em troca da produção, tais como proteção e religião.
                A relação de exploração que a cidade impõe ao campo reflete na divisão de classes dentro da cidade, a exploração das classes dominantes que definem os processos de produção e apropriação distribuídos sempre de forma desigual.
                A origem das cidades remete à origem das classes sociais, onde os dominantes aos poucos foram deixando as suas funções (cléricos, guerreiros e nobres) para administrar e explorar a produção de seus servos propositalmente instalados em moradias ao seu redor. Em outras palavras, havendo o excedente alimentar, uma parcela da população, no caso os dominantes, conquistaram o ócio necessário para que se ocupassem apenas das tarefas político-administrativas.
                O agrupamento de pessoas em pequenos espaços organizados, permitia à cidade, convertendo o excedente alimentar em sustento da força militar, condicionar e preparar os soldados que garantia o domínio político do território (defesa) assim como incumbiam-se da conquista de novos territórios aumentando a área de poder e influencia dos dominantes.
                Os guerreiros e sacerdotes assumem posição de domínio e as ofertas, com o tempo passam a ser obrigatórias, convertendo-se em impostos.
                A princípio, propunha-se que a cidade tivesse surgido ao redor do mercado com fins comerciais, mas essa ideia não tem fundamento porque na verdade ocorreu o contrário, ela surgiu antes, dando amparo aos mercadores que faziam o trajeto, abrigando-os e protegendo-os.
                Com a cidade, surge a produção regular e especializada de bens mais sofisticados que aos poucos, através do intercambio originam a moeda que acentua a divisão social do trabalho sendo também uma importante semente para o capitalismo.
                Quando a cidade se transforma em centro de produção acarreta uma luta de classes, onde a nova classe dominante transforma o valor de uso em valor de troca, ou seja, mercadoria. Com o êxodo rural cada vez mais acentuado, surge uma nova classe de produtores urbanos. Enquanto isso, no campo, o produtor é separado de seus meios de subsistência de modo que se vê obrigado a produzir valores de troca para, através de compra e venda, poder adquirir o que precisa para viver. Vale lembrar que outro importante motivo para que o camponês aumentasse sua produção eram as taxas e impostos cada vez mais altos. Alguns camponeses chegaram a perder suas terras de modo que, ou viravam escravos ou migravam para a cidade, onde se tornava um assalariado. Mesmo além disso, ele também foi seduzido pelos produtos manufaturados e sua intenção era ter cada vez mais produção para levar ao mercado, onde através de troca teria acesso a essas manufaturas.
                A revolução urbana, a concentração de pessoas requer uma expansão da divisão do trabalho através da especialização dos ofícios para atender a demanda, que não se restringe somente aos limites da cidade.
                A cidade vai acumulando diferentes modos de produção conflitantes, entre diversos outros fatores, surge uma classe de comerciantes banqueiros: o estopim para a revolução comercial. Nisso, a burguesia querendo se consolidar sobre as demais classes teve uma grande responsabilidade.
                “A posição e os privilégios de cada mestre se baseavam na observância das mesmas e imutáveis técnicas de produção. Deste modo, limitava-se o numero de mestres e excluía-se a competição entre eles. (...) isso limitava severamente o volume dos produtos colocados à disposição do mercador.”
                “Encontrava-se assim a burguesia comercial, entre duas barreiras: o monopólio sobre o excedente alimentar (...) e o monopólio sobre a produção manufatureira. (...) A servidão no campo (...) liberava mão de obra nas aldeias, que o comerciante passou a aproveitar na produção de manufaturas. Surge assim, a indústria doméstica (...) sem estar sujeito à regulamentação corporativa, cuja vigência se limitava à cidade. É a Revolução da Manufatura que se dá fora da cidade e contra a cidade.”
                Isso nos trás o comércio, a concorrência e, por fim, o capital comercial.
                A Revolução manufatureira conquistou e tomou a cidade a partir da aldeia. Ao contrário, a Revolução Industrial nasceu na cidade, com o investimento no instrumento de produção e não na matéria prima ou na mão de obra. Os antigos produtores manufatureiros não detinham mais seus próprios instrumentos de produção e também não mais dominavam a confecção de um produto do início ao fim. A meta da Revolução é a valorização do capital, tanto o fixo como o circulante, dando sempre preferência à técnica de produção de menor gasto para obter um lucro maior na venda do produto final. Como resultado, surgem as fábricas modernas, equipadas com maquinas que requerem um grande numero de trabalhadores e infraestrutura adequada, portanto, só poderia se dar na cidade. A fábrica que não nascia dentro da cidade, acabava por originar uma ao seu redor por estes motivos.
                A Inglaterra desponta nessa revolução devido ao seu mercado externo, cuja demanda exigia a produção em larga escala. As demais nações começam a despontar no cenário do comercio internacional em meados de 1875. Surgem nesse período os países subdesenvolvidos, que foram aqueles que não atingiram o desenvolvimento através da concentração da produção e domínio das técnicas produtivas industriais em seu território.
                O reflexo da industrialização no campo tornou o produtor rural um mero produtor especializado que, deixando de produzir todos os meios de subsistência, focado na produção de uma única cultura, passa a consumir cada vez mais os produtos industrializados da cidade. Em contrapartida, o advento tecnológico da industrialização no campo permitiu um aumento formidável da produção, ou seja, nos países industrializados, o campo foi integrado à industria.
                “Os ensaios que se seguem tratam dos problemas da urbanização no contexto do desenvolvimento. Todos eles têm, como traço teórico comum, um enfoque globalizador: a problemática urbana só pode ser analisada como parte de um processo mais amplo de mudança estrutural, que afeta tanto a cidade como o campo, e não se esgota em seus aspectos ecológicos e demográficos. Na verdade, hoje mais do que no passado, estes aspectos não passam de uma primeira aparência de um processo mais profundo de transformação da estrutura de classes e dos modos de produção em presença. É por isso que a análise do processo de urbanização não passa, muitas vezes de uma abordagem inicial que é obrigada a superar seu próprio tema se, de fato, deseja elucidá-lo. Portanto, quando se pensa em urbanização numa sociedade que se industrializa, é preciso procurar pelo papel que as classes sociais desempenham nela, pois em caso contrário, ela tende a ser tomada como um processo autônomo, fruto de mudança de atitudes e valores da população rural, perdendo-se de vista o seu significado essencial para o conjunto da sociedade.”

SINGER, P.I. À Guisa de Introdução: Urbanização e Classes Sociais. São Paulo: Brasiliense, 1990. 12ª ed. P. 11-28. In: Economia Política da Urbanização.

A urbanização e Cidades corporativas - fichamento


A Urbanização e a Cidade Corporativas
            Diante da nova ordem econômica mundial, o Brasil pós 64 se vê na necessidade de se adequar a esta atualidade ao mesmo tempo em que demanda atender as necessidades de desenvolvimento interno. A força motriz para atingir este objetivo vem dos avanços nas redes de transportes e comunicação que diminuem (se não eliminam) as imposições tempo – espaço.
            Com isso, as grandes empresas que antes se concentravam no Sudeste, começam a usufruir do restante do território brasileiro, antes inatingível devido às precárias condições de transporte e comunicação. Isso torna as grandes empresas cada vez mais fortes, estando presente em mais mercados consumidores, legitimando certos monopólios, já que os pequenos empresários não tem como competir com as poucas corporações que dominam o cenário. Isso se deu de forma rápida uma vez que estas poucas empresas envolvidas na massiva produção e consumo podiam controlar suas filiais de longa distancia. Entre estas empresas, um número considerável de multinacionais se fazia presente.
            Segundo Florestan Fernandes, o período coincide com o inicio do domínio das Américas por multinacionais que chegam com seus próprios meios de produção e divulgação de seus produtos. A economia interna sujeita-se, portanto às empresas que vem de fora para atender as suas demandas internas e de exportação.

A Produção do Espaço Necessário aos Grandes Capitais
            Entra em cena, o capital monopolista que demanda de investimentos astronômicos em infraestrutura e rede de transportes para a circulação e escoamento da produção das corporações. Ocorre ao mesmo tempo que, o governo federal passa a controlar o destino dos recursos públicos, agindo de acordo com seus interesses e deixando as administrações municipais cada vez mais fracas e desamparadas. Nesse caso, esses interesses federais já vêm maculados por ideologias de crescimento nascidas em décadas anteriores, onde atraindo para si as grandes empresas, o Brasil poderia através das exportações, atingir cada vez mais uma posição de destaque no cenário econômico mundial, além é claro, de prosperar sua pópria economia interna. Contudo para atrair essas empresas, o governo federal não poupou recursos, deixando as administrações locais sem os meios necessários para desenvolver o país do local para o regional e assim por diante, a partir de políticas de wallferstate, investindo no social uma parcela medíocre da receita.
            Em outras palavras, temos o governo federal tomando recursos das administrações municiais para investir na construção de um espaço que permita atrair as corporações que tiranizam a concorrência, corporações cada vez mais hegemônicas e onipresentes. Em contrapartida, os investimentos sociais e locais são cada vez mais escassos.

O Espaço da Modernização Contemporânea
            Ainda seguindo as ideologias de crescimento, a modernização gera sim um espaço propício e atrativo para as grandes empresas que chegam a se instalar em lugares cada vez mais distantes, eliminando a concorrência das pequenas e médias empresas, gerando assim, cada vez mais riqueza para si e, cada vez mais pobreza para a cidade onde se instalam. Esse movimento se dá com o apoio do governo que intui pela ‘modernização’.
            No ramo agrícola ocorre o mesmo processo, grandes empresas passam a dominar a produção e o pequeno produtor rural, incapaz de competir e manter seus impostos em dia, se vê fadado ao fracasso.
            A modernização contemporânea impõe aos governos a perda do seu controle político e econômico sobre o território e acarreta que os interesses da população são deixados de lado para se atender aos interesses do capital. Não seria errado dizer que são os governos que trabalham para as grandes empresas.

A Ação Política das Grandes Empresas
            As grandes empresas tendem a se beneficiar da mais valia, gerando cada vez maiores lucros para si em detrimento do trabalhadores. Com isso pode investir em tecnologias ou mesmo na criação de filais que a tornem cada vez mais ricas, dessa forma, aumenta o seu poder no mercado e também no meio político cujos interesses em modernização tendem a beneficiar essas grandes e ‘promissoras’ empresas, negligenciando das menores. O poder político se sujeita cada vez mais diretamente às corporações, cujos interesses estão sempre em primeiro plano e somente depois a economia local e a sociedade são vistas pelo governo.

Tecnosfera, Psicosfera e Urbanização Corporativa
            O Estado controla os investimentos determinantes para organização e planejamento do território. Este processo de ‘modernização’ ao qual o país se sujeitou aconteceu rapidamente, e as mudanças no espaço acarretaram uma série de consequências aos processos de urbanização.
            As cidades crescem de maneira desordenada e dispersa, suas funções atendem aos interesses nacionais, que nada mais são além dos interesses das corporações às quais o governo se submete. Elas se sujeitam à urbanização corporativa, onde cada cidade tem sua atividade central atendendo aos interesses do estado em si, alem disso, no caso das metrópoles, estão cada vez mais criando mecanismos que facilitem a chegada e permanência das grandes empresas.
            Essa adequação do território para acolher as corporações tem intrínseca, uma origem um tanto ordinária: consumo. As corporações visam produzir gastando o mínimo possível e estando presente em um maior numero de mercados para atingir ‘consumidores’. Sim, a população, desse ponto de vista do capital, é consumidora e não cidadã.

Contradições da Cidade Corporativa
            Na cidade corporativa, cabe ao Estado prover os meios e equipamentos que atendam às necessidades das grandes empresas e, com a mínima parcela de suas receitas camuflam seu descaso referente às pequenas empresas e à população, a sociedade em geral. Isso ocorre sob o intuito de que, através da receita dessas grandes empresas, o Brasil tenham sua economia fortificada e as atividades de exportação atinjam os patamares adequados à modernização. Mas, para atingir esta meta, o governo fecha negligencia a população que, marginalizada aumenta os índices de pobreza em todos os lugares. O que interessa à metrópole corporativa é a produção de capital e não o controle da pobreza.
            O governo sabota a si mesmo através de programas que deveriam solucionar problemas da urbanização corporativa mas na verdade, os agravam como é o caso do BNH, cujo intuito era solucionar o problema de habitação das classes mais baixas. No final das contas, o dinheiro que vinha do FGTS recolhido dos trabalhadores para o projeto, acabou por financiar construções de empresas privadas que atenderam a população que tinha maiores condições de arcar com as parcelas, o restante, também oriundo do FGTS era destinado a modernizar as infraestruturas urbanas de modo a atrair ou facilitar a presença das grandes empresas na cidade. Com isso, o pobre incapaz de adquirir seu imóvel financiado, foi sendo levado, pelas circunstancias a se instalar em locais cada vez mais distantes, originando a dispersão já mencionada que caracteriza o rápido crescimento das cidades.
            Outro projeto do governo nos mesmos moldes foi o C.U.R.A  que promovia obras de infraestrutura e modernizações em cidades de médio e grande porte que pudessem atrais mais empresas. Isso gerou ainda mais especulação imobiliária e os chamados vazios urbanos do que o projeto do BNH. Os serviços de melhorias promovidos na cidade pelo projeto pesavam sobre os baixos orçamentos da população pobre que se via obrigada a mudar-se para lugares mais afastados, em sua maioria ainda desertos, sem os serviços básicos de transporte, esgoto, asfalto, etc. Ambos os programas beneficiaram as grandes empresas e marginalizaram e segregaram o pobre.

Os Novos Recortes Espaciais
            Na atualidade temos um território dinâmico graças aos investimentos e avanços nas comunicações e transportes alem das infraestruturas nas cidades e em todo o espaço. Contudo somente as grandes empresas fazem uso de todo esse aparato estrutural que promove a produção de capital e assim matem a hegemonia de mercado. Essas empresas, em geral sediadas nas grandes metrópoles, fazem-se presentes ao longo de todo o território brasileiro, em locais estrategicamente escolhidos de acordo com seus interesses.

Sintese de Milton Santos

Metrópole coorporativa - fichamento


INTRODUÇÃO
(as cidades) elas separam em lugar de unir e nos deixam a impressão de que empobrecem a vida cotidiana ao invés de melhora-la. Pag. 9
(...) Nos países subdesenvolvidos, graças às peculiaridades de sua historia, os problemas são ampliados, os contrastes mais agudos, os remédios geralmente se impõe como novos problemas. Pag. 9
(...) essas metrópoles funcionam e evoluem segundo parâmetros globais. Mas elas tem especificidades, que se devem a historia do pais onde se encontram e à sua própria historia local. O mundo e o lugar intermediados pela formação socioeconômica e territorial, eis aí um principio de método a adotar, se quisermos apreender o significado de cada caso em particular. Pag. 9
(...) Não deve e nem pode deixar de lado as evidencias empíricas, obrigar-se á a retomá-las no contexto do presente e de sua elaboração. Pag. 10
(...) Trata-se do entendimento de um sistema, o que supõe sua historicidade, da qual lhe advém sua singularidade. Pag. 10
(...) o urbano tanto pode ser mais, quanto pode ser menos que a cidade e, sem o entendimento desta, considerada em uníssono como corpo e ação, a interpretação do urbano é frequentemente acanhada e insuficiente. Pag. 11
SÃO PAULO: UMA BREVE APRESENTAÇÃO
A área metropolitana de São Paulo é formada por 39 municípios (...). A população total é de cerca de 19 milhões de habitantes. (...) Essa aglomeração representa 11% da população brasileira, mas concentra cerca de 40% da produção industrial. Pag. 13
(...) Modernidade incompleta (...). Nela, (SP) se justapõem e se sobrepõem traços de opulência, devidos à pujança da vida econômica e suas expressões materiais, e sinais de desfalecimento, graças ao atraso das estruturas sociais e políticas. Tudo que há de mais moderno pode aí ser encontrado, ao lado das carências mais gritantes.  Pag. 13
São Paulo começa a ganhar fôlego, na historia econômica e territorial brasileira, no mesmo momento em que se instala a era industrial. A região paulista praticamente já nasce moderna, tanto pela produção, quanto pelo consumo. Pag. 13
“As ruas de São Paulo não envelhecem. Não tem tempo de envelhecer. (...) Aqui as casas vivem menos do que os homens. E se afastam para alargar as ruas. Nem há nada acatado, definitivo” (Maria do Carmo Bicudo Barbosa, 1087, p.8) (...) “As lembranças são mais duradouras do que o espaço construído e não encontram nele um apoio e um reforço” (Maria do Carmo Bicudo Barbosa, 1087, p.8-9). Pag. 14
(sobre essas mudanças) (...) condições exigidas para o aumento da eficiência e da rentabilidade. Pag. 14
(...) nela se exibem contrastes chocantes entre a riqueza de alguns e a pobreza de muitos. Pag. 14
A pobreza é estrutural e não residual. Ela aumenta na medida em que a cidade cresce. Pag. 15
(...) a extensão desmesurada da cidade enquanto dentro dela se mantém tantos vazios especulativos, é uma das causas do seu crescimento periférico. Esses fenômenos trabalham em conjunto, influenciando-se mutuamente e agravando a problemática urbana, cujas dimensões são multiplicadas pelas formas recentes do crescimento metropolitano: preferência pelos terrenos mais distantes para o estabelecimento de conjuntos habitacionais para as classes pobres; políticas públicas ligadas à modernização do sistema viário, com localização seletiva das infraestruturas, valorização diferencial dos terrenos e expansão da especulação, com todas as consequências derivadas da superposição de medidas elaboradas para atender às preocupações e interesses individualistas, agravando, desse modo, a crise urbana e as dificuldades em que vive a maioria da população. (em vez de interesses individualistas, não seria interesse do capital,  beneficiar as classes mais altas?) Pag. 16
CAPITULO 1: TAMANHO DA CIDADE, ESPECULAÇÃO, VAZIOS URBANOS
O Tamanho da Cidade
(...) até 1870, o raio do círculo que continha a área construída não passava de 1 KM. Em 1954, esse raio alcançaria 15 KM. Em nossos dias ... alcança medidas tão significativas, como 80 KM na direção Este-Oeste, e 40 KM na direção Norte-Sul. Pag. 17
(...) Segundo Lúcio Kovarick e Milton Campanário (1984)... “Somente nos anos 80, foram incorporados 480 km² de áreas periféricas que permanecem desprovidas dos principais serviços urbanos necessários à reprodução da força de trabalho”. Pag. 17-18
(...) Considera-se que, entre 1950 e 1980, a área urbana cresceu nove vezes, enquanto a população urbana multiplicou-se por 4,5 vezes. Pag. 18
Um dos estudiosos da metrópole paulistana, já em 1976, considerava sua área “desproporcionalmente grande, seja em relação ao crescimento demográfico e de atividades, seja em relação à capacidade do poder público promover os investimentos necessários para equipá-la com serviços públicos” (Luiz Carlos Costa, 1976, p. 19). Pag. 19
(...) nos primeiros decênios de seu desenvolvimento metropolitano, a cidade praticamente não é servida por transportes de massa, já que os trens apenas veiculam uma pequena parcela da população. (...) No final da década de 50 e inicio da década de 60, os bondes são eliminados e seus trilhos retirados e cobertos de asfalto, de modo a permitir que se pudesse implantar o modelo de desenvolvimento rodoviário que é hoje dominante. Pag. 23
Essa expansão rodoviária, combinada a fatores institucionais, acarreta, direta ou indiretamente, duas principais consequências: a primeira se dá quanto ao desenho urbano, com a cidade se expandindo ao longo de avenidas radiais mais ou menos adaptadas às linhas de relevo; a segunda, parcialmente resultante da primeira condição, verifica-se através de um grande empurrão no processo de especulação que iria acompanhar a evolução urbana até os nossos dias. Pag. 24
Recentemente o ritmo de expansão da cidade vertical foi mais rápido que o da cidade horizontal, mas as casas ainda são a grande maioria dos domicílios, assim como é maior a parcela correspondente da população. Entre 1981 e 1985, o número de casas aumentou de 4,23% e o de seus moradores de 1.81%, enquanto o estoque de apartamentos cresceu em 9,36 e o dos respectivos habitantes em 5,91%, consideradas as médias anuais. Pag. 25