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quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

AS TRÊS ECONOMIAS POLÍTICAS DO WELFARE STATE

AS TRÊS ECONOMIAS POLÍTICAS DO WELFARE STATE
O LEGADO DA ECONOMIA POLÍTICA CLÁSSICA
O welfare state pode diminuir a distinção entre classes com extensão da cidadania social? Quais as forças e os interesses por trás do welfare state?
Ainda no século XIX essa ideia é debatida pelos cientistas políticos. Vista por Adam Smith e seus seguidores socialistas, a intervenção do Estado (tendo como base um Estado corrupto) acentuaria a diferença entre classes, como um adendo do capitalismo para ludibriar os trabalhadores em beneficio das classes mais abastadas. Já os críticos liberais temiam que a intervenção estatal através de uma democracia social poderia introduzir o socialismo na sociedade e economia de maneira irreversível.
Alguns desses críticos defendiam que o Estado deveria interferir de maneira autoritária visando perpetuar a divisão e amenizar a luta de classes.
É o modelo social democrata o precursor do welfare state: a intervenção do Estado eliminaria parte da dependência do trabalhador em relação ao mercado e ao empregador, realizando ideais socialistas de igualdade e justiça, sem romper com o capitalismo.
A ECONOMIA POLITICA DO WELFARE STATE
Dois tipos de abordagem dominam as explicações dos welfare states: uma enfatiza estruturas e sistemas globais; a outra, instituições e atores.
A abordagem de sistemas estruturalista
Esta teoria procura apreender holisticamente a lógica do desenvolvimento. Como sua atenção se concentra nas leis de movimento dos sistemas, esta abordagem tende a enfatizar mais as similaridades do que as diferenças entre as nações; o fato de ser industrializada ou capitalista sobrepõe-se a variações culturais ou diferenças nas relações de poder.
Uma variante começa com uma teoria de sociedade industrial e afirma que a industrialização torna a política social tanto necessária quanto possível – necessária porque modos de produção pré-industriais como a família, a igreja, a noblesse oblique e a solidariedade corporativa são destruídas pelas forças ligadas a modernização, como a mobilidade social, a urbanização, o individualismo e a dependência do mercado. O x da questão é que o mercado não é um substituto adequado, pois estabelece apenas os que conseguem atuar dentro dele. Por isso a função de bem estar social é apropriada ao Estado-nação.
O welfare state é possibilitado também pelo surgimento de uma burocracia moderna como forma de organização racional, universalista e eficiente. É um sistema que emerge a medida que a economia industrial moderna destrói as instituições sociais tradicionais.
Mas esta abordagem despreza que, conforme a Lei de Wagner e de Alfred Marshall, é necessário certo nível de desenvolvimento econômico e, portanto, de excedente, para se poder desviar recursos escassos do uso produtivo (investimento) para a previdência social. Nesse sentido, a redistribuição social coloca a eficiência em perigo e só a partir de certo nível de desenvolvimento é possível evitar um resultado econômico negativo.
O novo estruturalismo marxista parte de um princípio analítico de que o welfare state é um produto inevitável do modo de produção capitalista. A acumulação de capital cria contradições que forçam uma reforma social. Dessa forma, o welfare states não precisa ser promovido por agentes políticos, o Estado se posiciona de maneira que as necessidades coletivas do capital sejam satisfeitas.
A abordagem institucional
Os economistas políticos clássicos deixaram claro porque as instituições democráticas deveriam influenciar o desenvolvimento do welfare state. Já os liberais temiam que a democracia plena comprometesse os mercados e instalasse o socialismo. Foi esse divorcio entre a economia e a política que fundamentou a abordagem institucional que insiste que todos os esforços para isolar a economia das instituições sociais e políticas destruirá a sociedade humana. Para sobreviver, a economia tem de incrustar-se nas comunidades sociais. Desse modo, a política social é pré-condição necessária para a reintegração da economia social.
Uma variante da teoria do alinhamento institucional afirma que os welfare states surgem mais prontamente em economias pequenas e abertas, particularmente vulneráveis aos mercados internacionais. Isso acontece porque há uma tendência maior a administrar os conflitos de distribuição entre as classes por meio do governo e do acordo de interesses quando tanto as empresas quanto os trabalhadores estão à mercê de forças que estão fora do controle doméstico.
É uma discussão que se coloca referencia a qualquer classe ou agente social em particular, por isso  é institucional. A tese afirmava que as maiorias favoreciam a distribuição social para compensar a fraqueza ou os riscos do mercado. Se é provável que os assalariados exijam um salário seguro-desemprego, também é provável que os capitalistas exijam proteção sob a forma de tarifas, monopólio ou subsídios. A democracia é uma instituição que não pode resistir às demandas da maioria.
Uma das variantes dessa tese diz que a cidadania plena tem de incluir também os direitos sociais. Outra variante afirma que a democracia alimenta uma intensa competição dos partidos pelo eleitor médio, o que, por sua vez, estimula gastos públicos crescentes (por exemplo, as ampliações importantes da intervenção pública ocorrem em eleições, como meio de mobilização do eleitorado).
Mas essa tese peca ao associar os direitos democráticos com o sucesso do welfare state, pois as primeiras iniciativas importantes e bem sucedidas de welfare state aconteceram antes da democracia, com o intuito de evitá-la (França de Napoleão III, Alemanha de Bismarck e a Áustria de Von Taaffe. Inversamente, onde a democracia chegou cedo, o welfare state retardou-se. Isso explica-se pelo fato de que onde a democracia foi instaurada mais cedo era esmagadoramente agrárias e dominadas por pequenos proprietários que usavam seus poderes eleitorais para reduzir os impostos, e não para elevá-los. As classes dirigentes em políticas autoritárias, ao contrário, tinham mais condições de impor tributos elevados a uma população relutante.
A CLASSE SOCIAL ENQUANTO AGENTE POLÍTICO
A tese da mobilização de classe enfatiza s classes sociais como os principais agentes de mudança e afirma que o equilíbrio do poder das classes determina a distribuição de renda. (...) Alem disso, supõe que os welfare states estabelecem por si mesmos as fontes de poder cruciais para os assalariados e assim fortalecem os movimentos de trabalhadores.
O welfare state é uma fonte de poder. (...) Os assalariados são manipulados pelo mercado, obrigados a competir, inseguros e dependentes de decisões e forças fora de seu controle. Isso limita sua capacidade de mobilização e solidariedade coletiva.
Neste cenário, a mobilização de poder depende do nível de organização dos sindicatos, do numero de votos e das cadeiras no parlamento e no governo, obtidas por partidos trabalhistas ou de esquerda.
Mas essa tese tem sido criticada por seu suecocentrismo, ou seja, em definir a estrutura da mobilização do poder com base na experiência singular da Suécia.
Há de se ressaltar que a mobilização das classes trabalhadoras em uma nação não é uma receita de bolo devido às variáveis introduzidas em cada contexto, baseadas na historia de cada país.
Em síntese, temos de pensar em termos de relações sociais, e não apenas em categorias sociais.
O QUE É O WELFARE STATE?
Todo modelo teórico precisa definir de algum modo o welfare state. (...) Não podemos testar argumentos conflitantes a não ser que tenhamos um conceito de uso geral do fenômeno a ser explicado.
Uma definição comum nos manuais é a de que ele envolve responsabilidade estatal no sentido de garantir o bem-estar básico dos cidadãos. Essa definição passa ao largo da questão de saber se as políticas sociais são emancipadoras ou não; se ajudam a legitimação do sistema ou não; se contradizem ou ajudam o mercado; e o que realmente significa “básico” no cenário em que o Welfare State satisfaça as necessidades básicas do cidadão?
Para Cutright (1965) e Wilensky (1975), o nível econômico, com seus correlatos demográficos e burocráticos, explica a maioria das variações do welfare state nos países ricos, medidas relevantes de mobilização da classe trabalhadora ou abertura econômica não estão incluídas. Diversos outros autores apresentam suas ideias sem testá-las realmente com explicações alternativas plausíveis.
A maioria dos estudos explica o welfare state com base nos gastos, mas isso pode corromper a realidade, mais uma vez, porque cada nação irá definir de forma diversa o destino dos gastos num programa de assistência estatal. Isso acontece porque o welfare state não segue um padrão obrigatório e uma nação, ao aplicá-lo pode não o estar fazendo com o exato intuito de welfare state, visando apenas uma ou outra classe e ainda assim, aproximando-se de um modelo de bem-estar social. Como um exemplo da disparidade entre gastos e o sucesso do modelo de democracia social é que uma soma de pequenos gastos em certos programas pode significar um welfare state mais comprometido com o pleno emprego.
O que configura um “Estado welfare state”? Conforme Theoborn (1983) existem três respostas: No mínimo, num welfare state genuíno, a maioria das atividades rotineiras diárias deve estar voltada para as necessidades de bem-estar de famílias, mas quando avaliamos as atividades rotineiras do Estado, em termos de gastos e quadro de funcionários, a maior parte de suas atividades dizem respeito à lei e a ordem, à administração e coisas do gênero. O welfare state não é algo do tipo introduzido em um Estado, mas sim ali nascido. Tampouco é admissível um Estado que se auto-intitule welfare state com essa prioridade de gastos e demandas citadas.
Uma segunda abordagem pó Richard Titmuss (1958) define: welfare state residual quando o Estado assume a responsabilidade quando a família ou o mercado são insuficientes, procurando limitar sua prática a grupos sociais marginais e merecedores; welfare state institucional quando universalista destinado a toda a população, personificando um compromisso institucionalizado com o bem-estar social. Em princípio, procura estender os benefícios sociais a todas as áreas de distribuição vital para o bem-estar societário.
Com base em Titmuss, diversos nomes chegaram a uma nova abordagem que força os pesquisadores a retirar o foco dos gastos para o conteúdo do welfare state. Nisso, o tipo de benefícios e serviços e, talvez o mais importante, em que medida o nível de emprego e a vida profissional fazem parte da ampliação dos direitos do cidadão. Mas sempre, a conceituação será embaraçosa, pois estaremos comparando tipos de Estados radicalmente diferentes.
Uma terceira abordagem consiste na comparação entre os modelos já citados com um modelo abstrato para então avaliá-lo como um todo. Mas isso é a-histórico e não apreende os ideais ou intenções que os agentes históricos tentaram realizar com as lutas pelo welfare state.
UMA RECONCEITUAÇÃO DO WELFARE STATE
A cidadania social constitui a ideia fundamental de um welfare state, mas antes de tudo deve-se envolver a garantia de direitos sociais. Quando são invioláveis, assegurados com base na cidadania e não no desempenho, implica uma desmercadorização do individuo frente ao mercado. O status de cidadão vai competir com a posição de classe das pessoas, e pode mesmo substituí-lo.
O welfare state não pode ser compreendido apenas em termos de direitos e garantias. Também precisamos considerar de que forma as atividades estatais se entrelaçam com o papel do mercado e da família em termos de provisão social.
DIREITOS E DESMERCADORIZAÇÃO
Na sociedade pré-capitalista poucos trabalhadores eram mercadoria no sentido de sua sobrevivência depender da venda de sua força de trabalho. Despojar a sociedade das camadas institucionais que garantiam a reprodução social fora do contrato de trabalho significou a mercadorizaçao das pessoas. A introdução dos direitos sociais implica um afrouxamento no status de mercadoria. A desmercadorização ocorre quando a prestação de um serviço é vista como uma questão de direito ou quando a pessoa pode manter-se sem depender do mercado.
A previdência ou a assistência social não gera necessariamente a desmadorização se não emanciparem substancialmente os indivíduos da dependência do mercado. A assistência aos pobres pode oferecer uma rede de segurança de ultima instancia. Mas quando os benefícios são poucos e associados ao estigma social, o sistema de ajuda força todos, a não ser os mais desesperados, a participarem do mercado. Os primeiros programas de assistência social foram deliberadamente planejados para maximizar a atuação no mercado de trabalho.
Quando os trabalhadores dependem inteiramente do mercado, fica difícil uma mobilização para uma ação de solidariedade, por exemplo. A desmercadorização favorece o trabalhador e enfraquece a autoridade absoluta do empregador.
Os direitos desmercadorizados diferem em sua evolução. Há aqueles em que há predominância da assistência social, com direitos não tão ligados ao desempenho no trabalho e sim à comprovação da necessidade. Em países onde esse modelo predomina, sua aplicação resulta no fortalecimento do mercado, uma vez que todos, menos os que fracassaram no mercado, serão encorajados a servir-se dos benefícios do setor privado.
Num outro modelo que adota a previdência social estatal e com compulsória com direitos bastante amplos, tem seus benefícios dependentes quase que integralmente de contribuições e, assim, de trabalho e emprego.
Já o modelo Beveridge parece a primeira vista ser o mais desmercadorizante, uma vez que oferece benefícios básicos e iguais para todos, independente de ganhos, contribuições ou atuações anteriores no mercado. Mas só raramente esse modelo consegue oferecer benefícios de qualidade que crie uma verdadeira opção ao trabalho.
Os welfare states desmercadorizantes são recentes. Uma definição mínima deve envolver a liberdade dos cidadãos, e sem perda potencial de trabalho, rendimentos ou benefícios sociais, de parar de trabalhar quando acham necessário.
Algumas nações chegaram próximas a desmercadorização no final da dos anos 60 e inicio da década de 70. Em quase todas as nações, os benefícios chegaram próximo da igualdade com os salários normais, porem com esperas e burocracias desanimadoras. Os welfare states escandinavos tendem a ser os mais desmercadorizantes, os anglo-saxões, os menos.
O WELFARE STATE ENQUANTO SISTEMA DE ESTRATIFICAÇÃO
O relacionamento entre classe social e cidadania, tem desde muito tempo, sido negligenciado, com o argumento que o welfare state criaria uma sociedade igualitária. Algumas escassas abrangências do tema foram sobre a distribuição de rende e sobre a educação como meio de ascensão social. Mas o welfare state não é apenas um mecanismo que intervém – e talvez corrija – a estrutura de desigualdade; é, em si mesmo, um sistema de estratificação. É uma força ativa no ordenamento das relações sociais.
A tradição de ajuda aos pobres e a assistência social a pessoas comprovadamente necessitadas, foram visivelmente planejadas com o propósito de estratificação. Ao estigmatizar seus beneficiários, promove dualismos sociais e por isso é alvo de ataques oriundos dos trabalhadores.
A instituição de benefícios previdenciários particularmente privilegiados pra o funcionalismo público foi um meio de recompensar a lealdade ao Estado e demarcar o status social singularmente elevado deste grupo. Este modelo de diferenciação de status é antigo, Bismark viam nessa tradição uma forma de combater os movimentos de trabalhadores.
As primeiras alternativas adotadas, quase invariavelmente, o modelo de sociedades auto-organizadas de ajuda mutua ou algo equivalente – projetos de ajuda mútua ou bem-estar comum - defendidos por sindicatos ou partidos. Os trabalhadores desconfiavam de reformas promovidas por um Estado hostil, e viam suas próprias organizações não só como bases para a mobilização de classes, mas também como embriões de um mundo alternativo de solidariedade e justiça, um microssomo do paraíso socialista futuro. Mas essas sociedades micro-socialistas mais dividiam do que uniam os trabalhadores. Isso porque a participação se restringia às camadas mais fortes, e as classes mais fracas de trabalhadores – os que mais precisavam de proteção – eram em geral excluídas.
Os socialistas passaram a adotar o principio do universalismo; tomado dos liberais, esse programa segue a linha do benefício uniforme democrático. Como alternativa à assistência aos comprovadamente pobres e à seguridade social corporativista, o sistema universalista promove a igualdade de status. Todos os cidadãos são dotados de direitos semelhantes, independente da classe ou da posição no mercado. Nesse sentido, o sistema pretende cultivas a solidariedade entre as classes, uma solidariedade da nação. Mas isso só daria certo enquanto a grande massa da sociedade for menos abastada de forma que os benefícios fossem considerados adequados. Conforme o poder aquisitivo da classe aumenta, estes benefícios se tornam insuficientes e parte-se para a previdência privada, por exemplo. Os pobres contam com o Estado, os outros, com o mercado.
Todos os modelos de welfare state, não só o universalista, estancam pelos problemas oriundos nas modificações da estrutura de classes. Diante desses problemas, uma das soluções encontradas na Alemanha, foi alterar a base do beneficio, em vez de ser proporcional a contribuição, torná-lo proporcional a remuneração.
REGIMES DE WELFARE STATES
As diversas variações internacionais do welfare state nos mostram combinações qualitativamente diferentes entre Estado, mercado e família.
Onde se aplica o welfare state liberal, predomina a assistência aos comprovadamente pobres e modestos planos de previdência social. Os benefícios atingem principalmente uma clientela de baixa renda, em geral composta por trabalhadores ou dependentes do Estado. Aqui, o Estado encoraja o mercado, tanto passiva – ao garantir apenas os benefícios mínimos – quanto ativamente – ao subsidiar esquemas privados de previdência.
Esse tipo de regime minimiza os efeitos da desmercadorização, contem o domínio efetivo dos direitos sociais e edifica a estratificação. Exemplos desse modelo podem ser encontrados nos EUA, Canadá e Austrália.
Um segundo tipo de regime, o welfare state conservador encontrado na Áustria, França, Alemanha e Itália. É um modelo fortemente corporativista onde a obsessão liberal com a mercadorização e a eficiência do mercado nunca foi marcante e, por isso a questão dos direitos sociais nunca chegou a ser uma questão seriamente controvertida. O que predominava era a preservação das diferenças de status, os direitos, portanto estavam ligados a classe e ao status. Este corporativismo estava por baixo de um edifício estatal inteiramente pronto a substituir o mercado enquanto provedor de benefícios, por isso a previdência privada desempenha um papel secundário. Contudo o impacto na distribuição de renda é desprezível uma vez que mantém as diferenças de classes.
Mas os regimes corporativistas são moldados de forma típica pela Igreja e por isso são muito comprometidos com a preservação da família tradicional. O principio da subsidiaridade serve para enfatizar que o Estado só interfere quando a capacidade da família servir os seus membros se exaure.
O terceiro grupo de países com o mesmo regime compõe-se de nações onde os princípios de universalismo e desmercadorização dos direitos sociais estenderam-se também às novas classes médias. Podemos chama-lo de regime social-democrata, pois nestas nações, a social democracia foi claramente a força dominante por trás da reforma social. Busca-se um welfare state que promova igualdade com os melhores padrões de qualidade e não uma igualdade das necessidades mínimas, como se procurou realizar em toda parte. Isso implicava, em primeiro lugar, que os serviços e benefícios fossem elevados a níveis compatíveis ate mesmo com o gasto mais refinado das novas classes médias; e, em segundo lugar, que a igualdade fosse concedida garantindo-se aos trabalhadores plena participação dos direitos desfrutados pelos mais ricos.
Esta formula traduz-se numa mistura de programas altamente desmercadorizantes e universalistas que, mesmo assim, correspondem a expectativas diferenciadas. Desse modo, os trabalhadores braçais chegam a desfrutar de direitos idênticos ao dos empregados White collar assalariados ou dos funcionários públicos; todas as camadas são incorporadas a um sistema universal de seguros, mas mesmo assim os benefícios são graduados de acordo com os ganhos habituais. Este modelo exclui o mercado e, em consequência, constrói uma solidariedade essencialmente universal em favor do welfare state.
Ao contrario do modelo corporativista subsidiador, o principio aqui não é esperar ate que a capacidade de ajuda da família se exaura, mas sim de socializar antecipadamente os custos da família. O ideal não é maximizar a dependência da família, mas capacitar a independência individual. Nesse sentido, o modelo é uma fusão peculiar de liberalismo e socialismo. Por conseguinte, o modelo assume uma pesada carga social.
Talvez a característica mais notável do regime social-democrata seja a fusão entre o serviço social e o trabalho. Está ao mesmo tempo genuinamente comprometido com a garantia do pleno emprego e inteiramente dependente de sua concretização. Os enormes cistos de manutenção de um sistema de bem-estar solidário, universalista e desmercadorizante indicam que é preciso minimizar os problemas sociais e maximizar os rendimentos. A melhor forma de conseguir isso é, obviamente, com o maior numero possível de pessoas trabalhando e com o mínimo possível vivendo de transferências sociais.
Os modelos de welfare states, apesar de caracterizarem-se distintamente, não chegam a ser puros, agregando em um determinado momento, características de um outro modelo vigente. Apesar da falta de pureza, se nossos critérios essenciais para definir os welfare states tem a ver com a qualidade dos direitos sociais, com a estratificação social e com o relacionamento entre Estado, mercado e família, então obviamente o mundo compõe-se de aglomerados distintos de regimes. Comparar os welfare states na base do mais ou menos ou, na verdade, de melhor ou pior, levará a resultados muito equivocados.

CAUSAS DOS REGIMES DE WELFARE STATES
Se os welfare states se agrupam em três tipos distintos de regime, estamos frente a tarefa muito mais complexa de identificar as causas das diferenças entre eles. As nações que estudamos são todas mais ou menos parecidas com relação a quase todas as variáveis, exceto a da mobilização da classe trabalhadora. E encontramos partidos e movimentos de trabalhadores muito poderosos em cada um dos três agrupamentos.
Uma teoria do desenvolvimento do welfare state deve obviamente reconsiderar suas hipóteses causais se quiser explicar os agrupamentos. A tarefa é identificar efeitos de interação notáveis. Assim, três fatores em particular seriam importantes: a natureza da mobilização de classe (principalmente classe trabalhadora); as estruturas da coalizão política de classe; e o legado histórico da institucionalização do regime.
Não há absolutamente nenhuma razão que nos leve a acreditar que os trabalhadores venham a forjar automática e naturalmente uma identidade de classe socialista. A formação histórica das coletividades das classes trabalhadora varia, assim como seus objetivos, ideologias e capacidades políticas. Existem diferenças fundamentais tanto no desenvolvimento do sindicalismo quanto dos partidos políticos. Os sindicatos podem organizar-se por categorias ou em função de objetivos mais universais, pode ser religiosos ou leigos; podem ser ideológicos ou não. Quaisquer que sejam, afetam decisivamente a articulação das demandas políticas, da coesão de classe e do alcance da ação dos partidos dos trabalhadores. É claro que uma tese de mobilização da classe trabalhadora tem de prestar atenção à estrutura sindical.
A estrutura do sindicalismo pode ou não se refletir na formação de um partido dos trabalhadores, mas muitos fatores conspiram para tornar praticamente impossível supor que qualquer partido trabalhista ou de esquerda chegue algum dia, sozinho, a estruturar um welfare state.
Já notamos que a classe trabalhadora tradicional quase nunca constitui uma maioria eleitoral. Conclui-se daí que uma teoria da mobilização de classe deve ir além dos grandes partidos de esquerda.
É um fato histórico que a construção do welfare state dependeu da edificação de coalizões políticas. A estrutura das coalizões de classe é muito mais decisiva que as fontes de poder de qualquer classe tomada isoladamente.
O surgimento das coalizões alternativas de classe é, em parte, determinado pela formação da classe. Nas primeiras fases da industrialização, as classes rurais em geral constituíam isoladamente o maior grupo do eleitorado. Se os social-democratas queriam maiorias políticas, era aí que tinham de buscar aliados. Um dos muitos paradoxos da história é que as classes rurais foram decisivas para o futuro do socialismo. Onde a economia era dominada por famílias de pequenos proprietários com elevado coeficiente de capital, o potencial para se fazer uma aliança era maior do que nas economias dependentes de grandes aglomerados de trabalho barato. E onde os proprietários de terra eram politicamente articulados e bem organizados, a capacidade de negociar acordos políticos era muitíssimo superior.
O papel dos proprietários de terra na formação das coalizões e, por conseguinte, no desenvolvimento de um welfare state, é claro. Nos EUA, o New Deal baseou-se numa coalizão semelhante (forjada pelo Partido Democrata), mas com a importante diferença de que o Sul, com uso intensivo de mão de obra, bloqueou um sistema de previdência social realmente universalista e se opôs a outros projetos de bem estar social. A economia rural da Europa continental era, ao contrario, muito hostil a coalizões verde-vermelho. Muitas vezes, como na Alemanha e na Itália, grande parte da agricultura era intensiva em Mao de obra e, por isso os sindicatos e partidos de esquerda eram vistos como ameaça.
A dominação política foi – até depois da Segunda Guerra Mundial – em grande parte, uma questão de política das classes rurais. A edificação de welfare state neste período foi, portanto, ditada pelo tipo de força que conseguisse atrair os proprietários de terras.  Mais tarde, a maioria das nações se depararia com um dilema, o fato de a camada ascendente dos White collar constituir o ponto vital das maiorias políticas. A consolidação dos welfare states depois da Segunda Guerra passou a depender fundamentalmente de alianças políticas com as novas classes médias.
Como as novas classes médias desfrutaram – em termos históricos – de uma posição relativamente privilegiada no mercado, também tiveram bastante sucesso no sentido de satisfazer suas demandas previdenciárias fora do Estado e, quando funcionários públicos, de conseguir uma previdência social privilegiada. A segurança no emprego é tradicionalmente de tal ordem que o pleno emprego tem sido uma preocupação secundária. Por fim, qualquer programa de equiparação drástica de renda provavelmente vai enfrentar grande hostilidade da clientela de classe media. Tendo em mente estes elementos, poderíamos concluir que o surgimento das novas classes médias abortaria o projeto social-democrata e fortaleceria a fórmula liberal do welfare state.
As tendências políticas das novas classes médias tem realmente sido decisivas para a consolidação do welfare state. O papel desse grupo na modelagem dos três regimes de welfare state que descrevemos acima é claro. O modelo escandinavo baseou-se quase inteiramente na capacidade da social-democracia de incorporá-las num novo tipo de welfare state: o que proporciona benefícios correspondentes aos gostos e expectativas das classes médias, mas ainda assim preserva o universalismo de direitos. Na verdade, ao expandir os serviços sociais e o emprego público, o welfare state participou de forma direta na constituição de uma classe média instrumentalmente dedicada a social-democracia.
As nações anglo-saxônicas, ao contrário, preservaram o modelo residual de welfare state exatamente porque as novas classes médias não trocaram o mercado pelo Estado. Em termos de classe, a consequência é o dualismo. O welfare state atende essencialmente a classe trabalhadora e os pobres. A previdência privada e os benefícios ocupacionais atendem as classes medias. Dada à importância eleitoral destas ultimas, é lógico que houve resistência a maiores extensões das atividades do welfare state.
O terceiro regime, o da Europa Continental, também foi marcado pelas novas classes médias, mas de forma diferente. A causa é histórica. Desenvolvidos por forças políticas conservadoras, esses regimes institucionalizaram a lealdade da classe média à preservação tanto de programas de previdência social segregados ocupacionalmente quanto, em ultima instancia, das forças políticas que geraram.

CONCLUSÃO
Apresentamos aqui uma alternativa a uma teoria simples da mobilização de classe no desenvolvimento do welfare state. Foi motivada pela necessidade analítica de passar de uma abordagem linear para uma abordagem interativa tanto com relação aos welfare states quanto as suas causas. Se quisermos estudar os welfare states temos de começar com um conjunto de critérios que definam seu papel na sociedade. Este papel não é certamente gastar ou tributar; nem é necessariamente o de criar igualdade. Apresentamos uma estrutura para comparar welfare states que levam em consideração os princípios pelos quais os agentes históricos uniram-se e lutaram voluntariamente. Quando focalizamos os princípios inscrustrados nos welfare states descobrimos agrupamentos distintos de regimes, não meras variações de mais ou menos em torno de um denominador comum.
As forças históricas por trás das diferenças de regime são interativas. Envolvem, em primeiro lugar, o modelo de formação política da classe trabalhadora e, em segundo, a edificação de coalizões políticas é decisiva. Em terceiro lugar, as reformas anteriores contribuíram decisivamente para a institucionalização das preferências de classe e do comportamento político. Nos regimes corporativistas, a previdência social que promovia distinções hierárquicas de status cimentou a lealdade da classe média a um tipo peculiar de estado de welfare state. Nos regimes liberais, as classes médias casaram-se institucionalmente com o mercado. E, na Escandinávia, os êxitos da social-democracia durante as décadas anteriores ligaram-se estreitamente à instituição de um welfare state de classe media que beneficia tanto sua clientela tradicional na classe trabalhadora quanto a nova camada dos White collar. Os social-democratas escandinavos conseguiram realizar esse feito em parte porque o mercado previdenciário privado era relativamente pouco desenvolvido e, em parte, porque foram capazes de edificar um welfare state com trações de luxo suficiente para satisfazer as necessidades de um público mais diferenciado. Isto também explica o custo extraordinariamente elevado dos welfare states da Escandinávia.
Mas uma teoria que pretende explicar o crescimento do welfare state também deve ser capaz de entender sua redução ou declínio. Em geral acredita-se que reações violentas ao welfare state e revoltas anti-taxação só detonadas quando os gastos sociais tornam-se grandes demais. Paradoxalmente, o oposto é que é verdade. Os sentimentos contrários ao welfare state durante a última década em geral foram mais fracos quando as despesas foram maiores e vice-versa. Por quê?
Os perigos de reações violentas contra o welfare state não dependem dos gastos, mas do caráter de classe dos welfare states. Aqueles de classe média, sejam eles social-democratas (como na Escandinávia) ou corporativistas (como na Alemanha) forjam lealdades por parte da classe média. Os welfare states residuais, liberais, como nos EUA, Canadá e, cada vez mais a Grã-Bretanha, dependem da lealdade de uma camada social numericamente pequena muitas vezes politicamente residual. Nesse sentido, as coalizões de classe em que se baseiam os três tipos de regime do welfare state não explicam apenas a sua evolução passada, mas também, suas perspectivas futuras.
ESPING-ANDERSEN, G. 1991

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Blocos Internacionais de Poder - síntese



            O autor aborda o tema BLOCOS INTERNACIONAIS DE PODER, primeiramente admitindo que o ‘poder’ é dinâmico, o poder acompanha as rápidas transformações mundiais ao longo da historia, alem do que, o poder pode ser limitado a uma certa área de influencia, assim como ser hegemônico em termos mundiais. Propõe-se um debate entre países do Norte e do Sul, entre desenvolvidos e ‘em desenvolvimento’.
            Destaque para o detalhamento dos blocos. EUA, cujas crises tanto internas como externas tendem a aumentar devido à concorrência com o bloco europeu e sino japonês. Estes que por sua vez, viram na integração dos Estado, uma probabilidade de competir com a potencia hegemônica que os EUA foram durante muito tempo. Difunde-se assim uma Nova Ordem Mundial com a ascensão do bloco europeu, o fortalecimento do bloco asiático e a crise no EUA.
            Os blocos se expressam através de acordos entre os países participantes. Pode ser um acordo simples de comercio bilateral, como também pode ser uma ordem política mais complexa, como no caso da UE. Os países componentes são levados aos acordos por interesses econômicos em comum, mas também podem ter em comum interesses políticos e culturais, mas isso não é uma regra. O caso do bloco europeu, é o maior exemplo da dimensão da globalização, pois nele existem arranjos políticos, regimentos internos, unificação da moeda, apoio financeiro entre os componente, alem é claro da identidade europeia de seus cidadãos.
            Os blocos são a única alternativa para sustento da economia do Estado Nação, que se vê ameaçado pelas multinacionais oriundas de outros países ou instituições como FMI e o Banco Mundial. Sem a integração das economias, seria impossível manter concorrência justa com os EUA. Enquanto isso, a divisão entre núcleo e perifica deve ser repensada, pois a periferia encontra-se nas áreas desenvolvidas do núcleo e a industrialização também já alcançou as economias periféricas.
            Ainda sobre a UE, houve entraves no inicio, por exemplo, com a relutância da Inglaterra em abrir mão da supremacia nacional mesmo estando em crise; a padronização das tarifas e impostos; partidos políticos sem propostas supranacionais, diferenças sociais e de exploração de mão de obra entre os países componentes. Alem desses o autor relata que a abertura das fronteiras para a livre circulação de pessoas pode ter causar certa fragilidade quanto ao combate ao trafico de drogas e ao terrorismo.
            Quanto aos antigos países socialistas, estes devido ao grande atraso tecnológico também buscam parcerias para não entrarem em crise. No bloco asiático, destacam-se Japão e China como núcleo para os tigres asiáticos, Austrália e Nova Zelândia. O Japão alcança considerável desenvolvimento tecnológico por não ter tido a necessidade de investir em armamentos, já que os EUA estavam presentes militarmente e, também por um processo de reforma agrária que distribuiu melhor a renda. Os Tigres asiáticos devem o sucesso do mini - bloco à política de exportação, com mão de obra barata e investimento na educação, ali empresas japonesas e norte americanas se instalam apenas para se beneficiar da mais valia. Este serve inclusive como modelo para o Brasil que criou a Zona Franca de Manaus, como polo industrial com mão de obra barata e isenção fiscal visando também aumentar os índices de exportação.
COSTA, Rogério Hasbaert da. Blocos Internacionais de Poder. 4ª ed. São Paulo: Contexto 1994. Coleção Repensando a Geografia

Imperialismo e Geopolítica Global - sintese



            Vesentini explora tempo e espaço de forma única: o tempo é o espaço e, o espaço é o tempo, é a historia. Se faz necessário, portanto entender essa história contemporânea no que se refere a política do Imperialismo e seus conceito para compreender o espaço unificado mundialmente.
            Esse espaço mundializado com a globalização vem sendo moldado de acordo com os interesses do capital financeiro intrincado aos interesses das classes dominantes e do Estado. O autor aborda a globalização por uma outra perspectiva, como a expansão do capitalismo financeiro e exploração do mundo subdesenvolvido. Faz-se presente em todo canto do globo, refletidas no espaço, as relações de exploração entre classes dominantes e dominadas. Isso nos leva a uma releitura do conceito de Imperialismo, cuja política visa fortalecer o Estado, eliminar a concorrência e dominar espaços econômicos cada vez maiores através dos monopólios das grandes empresas. Não há uma relação direta entre o Imperialismo e a exploração da mão de obra, da mais valia, do trabalho assalariado, etc, outra contradição da teoria do Imperialismo é que prevê uma hegemonia mundial, ao passo que, o que se vê na atualidade é uma dezena de potencias despontando no cenário mundial, difundindo o capitalismo e suas relações de exploração.  Uma definição mais precisa para a política imperialista atual seria o fortalecimento do Estado, o extermínio da concorrência e domínio de espaços econômicos cada vez maiores através dos monopólios das grandes empresas.
            Seria possível esquematizar a difusão capitalista a nível planetário da seguinte forma: O Estado é a força motriz do capitalismo e o maior interessado em dominar cada vez mais territórios. Para tanto, ampara as grandes empresas (as multinacionais), pois através delas, terão lucro na exploração de demais territórios, uma vez que os lucros das empresas sempre são encaminhados para o centro, para seu país de origem. Existe ainda um segundo cenário, onde se faz necessária a “imposição” que é feita através das forças militares altamente desenvolvidas ao redor de todo mundo. Isso levanta uma outra problemática, enquanto os países tanto desenvolvidos quanto os em desenvolvimento investem massivamente em suas forças militares, desenvolvendo novas tecnologias, mesmo sem a iminência de guerras, o setores civis da economia, programas sociais e culturais são deixados de lado e isso pode acabar afetando o desenvolvimento qualitativo do Estado que prefere investir no poderio militar tanto para caso de possível guerra, mas principalmente para intimidar e impor sua política expansionista. O Estado precisa de territórios para explorar, e o terá a custa de violência se necessário, com amparo do Exército largamente equipado. Guerras e violência andam às margens da expansão capitalista, mas indissociáveis. Esse poder militar enfraquece os debates e acordos políticos uma vez que a força bélica de uma nação é usada para intimidar aquelas cujos interesses podem ser conflitantes. Estaríamos a caminho de uma nova guerra, uma revolução socialista imposta de cima para baixo através dos avançados meios de destruição?
            A partir disso, se dá o aprimoramento da geopolítica e geoestratégia, dadas as dimensões de uma guerra nos dias atuais. As áreas estratégicas não são mais pontos fixos. É móvel dependendo dos interesses de cada Estado e esta intimamente ligada na maioria das vezes à localização geográfica de um território. Até aqui, temos o Estado amparando empresas multinacionais, que colaboram com o militarismo que por sua vez é financiado também pelo Estado, para o qual está apto a defender-lhe os interesses, gerando graças aos crescentes adventos tecnológicos, novas visões sobre geopolítica e geoestratégia.
            A geopolítica desenvolveu novas estratégias a partir da guerra fria, onde as superpotências tanto eram inimigas quanto dependentes uma da outra e também dos países aliados que optavam por apoiar ou o socialismo igualitário da URSS ou o capitalismo liberal dos EUA.
            O autor conclui que, nos dias atuais devido a potencia das armas de destruição, uma guerra não levaria a ascensão de uma classe em detrimento de outra, mas sim à destruição planetária. Por esse motivo, faz necessário um amplo movimento pacifista, saindo das camadas mais locais da sociedade, de baixo para cima para evitar que todas as classes, todo o planeta seja devastado por uma guerra.  Não seria equívoco pensar uma nova sociedade sem classes (sem precedentes na historia)
 VESENTINI, José William. Imperialismo e Geopolítica Global. Campinas/SP: Papirus, 1987 

O espectro da ALCA


O ESPECTRO DA ALCA
MERCOSUL E ALCA
ALCA
}  Maior zona de livre comercio do mundo
}  Histórico
Na cúpula das Américas de 1994 realizada em Miami, Flórida, os chefes das 34 nações (exceto Cuba) concordaram em assinar um pacto hemisférico de comércio e de investimento, chamado Associação de Livre Comércio das Américas – ALCA.
CONCORDARAM MAS NÃO ASSINARAM

}  Objetivo
A ALCA pretende introduzir no hemisfério ocidental todas as cláusulas dos acordos sobre serviços propostos pela OMG-GATS ( Acordo Geral Sobre Comércio de Serviços), para criar uma superagencia de comércio com a mais ampla autoridade sobre todos os aspectos da vida nessa região. com os poderes do AMI (Acordo Multilateral sobre os Investimentos) que foi rejeitado pela OCDE em 1998



ALCA X SOCIEDADE CIVIL
Foi estabelecida uma Comissão de Representantes de Governo para a Sociedade Civil. Ao mesmo tempo, os representantes das empresas entraram diretamente no processo de negociações, por meio do Fórum de Negócios das Américas.
O resultado foi a dominação das corporações nas negociações, enquanto a sociedade civil ficou para trás.
Lembrando que essa comissão só foi criada porque organizações da sociedade civil tinham exigido que grupos de trabalho sobre governança democrática, trabalho e direitos humanos, segurança dos consumidores e meio ambiente fossem incluídos nas negociações.



A Investida Econômica
Apesar de ter expandido sua hegemonia comercial e financeira para todo o mundo, os EUA procuram aumentar sua participação no comércio e nas transferências por serviços na America do Sul face à concorrência da União Européia. (em outras palavras esta proposta tem como claro objetivo, favorecer a economia Americana frente a concorrência com a UE no que tange ao mercado da America do Sul)


A proposta da ALCA
v  uma subordinação de colônias à potencia imperial
v  as corporações transnacionais com sede nos EUA acumulam ativos latino-americanos
v  determinam o fluxo unilateral de lucros
v  juros e royalties, do sul para o norte
Essa subordinação e não a integração define a natureza da ALCA, diferente da União Européia.
Em contabilidade, Ativo é um termo básico utilizado para expressar o conjunto de bens, valores, créditos, direitos e assemelhados que forma o patrimônio de uma pessoa, singular ou coletiva, num determinado momento, avaliado pelos respectivos custos
Na atualidade, royaltie é o termo utilizado para designar a importância paga ao detentor ou proprietário ou um território, recurso naturalprodutomarcapatente de produto, processo de produção, ou obra original, pelos direitos de exploração, uso, distribuição ou comercialização do referido produto ou tecnologia.


A ALCA privilegia a posição monopolista dos EUA
proporciona mais oportunidades às empresas norte-americanas para apropriarem-se de empresas privatizadas a preços ‘políticos’, em vez de pagarem os preços do ‘mercado’.


No âmbito da ALCA, as corporações norte-americanas poderão operar seguindo os regulamentos de seu país, em detrimento da legislação dos países onde atuam, particularmente no que diz respeito à legislação trabalhista, de saúde, de educação e ambiental.


O objetivo último da ALCA é construir uma barreira à concorrência euro-asiática, para extrair o máximo de ganhos da América Latina e, assim financiar o déficit e a crise econômica que se alastra rapidamente nos EUA.


O Futuro Incerto da Soberania dos Países Sul-americanos
Após 11 anos de existência oficial, o MERCOSUL está agonizando com as trocas comerciais entre seus parceiros praticamente estancados.
                A persistência da crise financeira-fiscal-cambial da Argentina leva-a a procurar negociar diretamente com os EUA em um eventual acordo bilateral. Também, o Uruguai está esboçando uma política para ampliar o comércio com os EUA, bilateralmente.



Mas segundo as regras do MERCOSUL, seus países membros não podem negociar acordos bilaterais de livre comercio com outros governos.



Sem uma prévia integração da America Latina através do MERCOSUL, não haverá possibilidade de negociar em pé de igualdade com os EUA ou mesmo com a União Européia.


Sem um Mercosul forte não haverá possibilidade de negociar em pé de igualdade com os EUA ou mesmo com a União Européia. Ambos procuram construir mercados cativos para suas corporações transnacionais que deslocam suas fábricas para as regiões que oferecem, alem de mão de obra relativamente qualificada e barata, também condições de infraestrutura adequadas e, frequentemente, subsídios e incentivos fiscais.


Os EUA querem incluir na regra sobre investimentos, no futuro bloco integrado, uma cláusula que permita às empresas estrangeiras processar os governos, em cortes internacionais.


A investida das empresas transnacionais, forçam a privatização do setor público, Saúde e Educação, visando o desmantelamento completo dos serviços públicos, obrigando os governos a submeter-se às normas da concorrência internacional.
                Como fica a soberania nacional e os direitos dos cidadãos, dos países das América do Sul, no caso de serem integrados à ALCA?



A Quem Interessa a ALCA?
Em resumo, o projeto da ALCA atende aos interesses econômicos e estratégicos dos EUA na América do Sul, afetando particularmente o Brasil, por seu potencial econômico, população, dimensões territoriais e vocação democrática.


MERCOSUL E ALCA
A começar pela falta de complementaridade dos setores produtivos e pela ausência de um sistema planejado de compensações para aqueles que seriam afetados pela abertura, mesmo que parcial, das fronteiras comerciais, a tão aclamada integração regional agravou as desigualdades sociais e econômicas em cada um dos países parceiros.



O Projeto ALCA
Essa desvantagem de domínio tecnológico, do hardware e do software, confere às empresas norte-americanas condições de competitividade ímpares. Embora haja referencias ao papel das economias menores e a importância das legislações trabalhistas e ambiental, as negociações tem se concentrado na formulação de um acordo de comercio preferencial para produtos e serviços da “nova geração”, nos quais mesmo os países desenvolvidos da America do Sul são meros principiantes.
Por isso as empresas norte-americanas pressionam para assegurar que os direitos de propriedade intelectual fossem plenamente respeitados, ameaçando com sansões severas, alem das regras da OMC (Organização Mundial de Comércio).


ALCA e o Brasil ?
A proposta ALCA atinge profundamente o projeto de integração da America do Sul presente nos planos do MERCOSUL e do Governo Brasileiro, cujos laços comerciais com a União Européia são tão ou mais importantes do que aqueles com os EUA.
Para o Brasil, uma recusa da participar das negociações sobre a ALCA poderia levar a um isolamento na própria America do Sul, particularmente após a manifestação do Chile, buscando associar-se ao NAFTA. Também Uruguai e Argentina, Colômbia e os países centro-americanos têm deixado claro seu interesse em associar-se aos EUA.


Certamente a ALCA não imitará a União Européia, onde o livre movimento de capital, de trabalho, serviços e tecnologia prevalece como norma legal. Podemos esperar a abertura das fronteiras do Canadá e EUA para a livre migração de trabalhadores da América Latina e do Caribe?

Meridionalismo X meriodionalidade


O termo “meridionalidade” começou a ser usado primeiramente para distinguir democracia de autocracia; depois capitalismo de socialismo e por fim, a divisão norte e sul que se baseia em caracteres econômicos e políticos. Define no sentido geopolítico, a distribuição geográfica do poder. Os países localizados ao Sul tendem a apresentar características semelhantes no que tange à cultura, língua, economia e relações de poder. Estas características, habitualmente fragilizadas devido a fragilidade do sistema político dos países meridionais incapazes portanto de criar e cultivar consistentes relações de poder com a ala norte. Na concepção do autor, existe uma interdependência entre os países do sul devido a essas semelhanças ou “disparidades que se completam” que clama por um novo tratado, um bloco ou organização para que se relacionem com o norte.
Sendo a meridionalidade a característica geopolítica, o “meridionalismo” corresponde a aceitação da identidade da meridionalidade e não seria errado dizer, “impô-la”. Na minha concepção, o meridionalismo nos tempos atuais corresponde a uma ideologia dos países do sul de se auto afirmarem suficientes cultural e socialmente reagindo ao preconceito e discriminação ao qual foram expostos por toda a historia, desde suas colonizações pelos países do Norte.
Kelly Leão

Mercosul


MERCOSUL: NOVO TERRITÓRIO OU A AMPLIAÇÃO DE VELHAS TENDENCIAS?
Contexto Internacional
                A Globalização remete à ideia de um movimento que tem como “campo de ação” todo o planeta, um movimento que opera na escala mundial. A regionalização, por outro lado, mostra uma tendência a atuar em uma área limitada do planeta, em uma escala mais reduzida.
                A complexidade crescente no processo produtivo é um dos eixos dessas mudanças. A incorporação do conhecimento tecnológico aparece como a condição necessária para o aumento da produtividade e do crescimento econômico. (...) As novas tecnologias, sobretudo no campo da microeletrônica, imprimem um salto qualitativo no processo de produção, de gestão e de organização do trabalho. É assim, que nesse processo, a qualidade da informação tem se convertido em fator estratégico para a competitividade das empresas, regiões e dos países.
                Esse salto, por implicar, de um lado, investimentos de alto custo, e de outro, uma rápida obsolescência dos produtos e processos, cria a necessidade de ampliar a dimensão dos mercados. Dessa maneira, novas tecnologias exigem escala planetária, acentuando a tendência da globalização da economia.
                A crescente transnacionalização da economia a qual, embora não seja novidade, acentuou-se nas ultimas décadas. O avanço nas tecnologias de informação facilita significativamente essa tendência ao permitir que etapas da produção se localizem em países diferentes, mantendo o monitoramento centralizado sobre elas. (...) é a consolidação de um espaço integrado da empresa, alem das fronteiras nacionais.
                Os governos nacionais buscam ampliar o espaço de realização das mercadorias com maior abertura da economia. A ampliação dos mercados, através da criação de zonas de livre comércio, uniões aduaneiras ou mercados comuns, se transforma assim em uma saída para enfrentar as novas condições de competitividade internacional.
                Tanto regionalização quanto globalização decorrem de uma necessidade crescente de ampliação de mercados.
                É bom ressaltar, no entanto, que os agrupamentos entre países tem preferentemente caráter intergovernamental, com peso ainda significativo das políticas conduzidas pelos Estados.
Algumas Particularidades Latino-americanas
                A formação de um mercado comum no Cone Sul (MERCOSUL) é uma das iniciativas intra-regionais de caráter minilateral que se tem registrado na América Latina no inicio da década de 90.
                Diante do contexto das crises vivenciadas nos países da America Latina e das mudanças estruturais do sistema econômico internacional, procura-se conformar, como uma das formas de reativação econômica, associações minilaterais que dinamizem o comercio intrazonal.
                Tentam-se transformar os processos de integração já em curso, em instrumento para dinamizar as relações econômicas exteriores. Neste contexto, situa-se o MERCOSUL, proposta de integração entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, que surge com a assinatura do Tratado de Assunção em março de 1991. De acordo com o Artigo nº 1 desse Tratado, os Estados Parte decidem construir um mercado comum, que deverá ser estabelecido até 31 de dezembro de 1994 e que implica nas seguintes metas: (a) livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países, (b) o estabelecimento de uma política comercial comum em relação a terceiros países, (c) a coordenação das políticas macroeconômicas e setoriais entre os Estados membros, e (d) o compromisso de harmonizar as legislações nacionais nas áreas pertinentes.
                Limitam-se ao tratamento da questão das barreiras ao comercio (dos membros da comunidade entre si e no seu relacionamento com o resto do mundo). O mercado comum, por sua parte, inclui a livre mobilidade de mão de obra e de capital, o qual exige um importante esforço na coordenação das políticas internas dos países envolvidos.
Os Momentos de Integração Econômica no Cone Sul
                1985 – Brasil e Argentina iniciam processos de integração do Cone Sul.
                Essa ligação é uma tentativa de reverter o esquema predominante no comercio bilateral, que se baseia fundamentalmente na exportação de produtos primários com pouco grau de processamento por parte da Argentina diante das exportações brasileiras de manufaturas. Esquema clássico de especialização intersetorial, que, em uma situação de mercado ampliado, pode até provocar a desaparição de algum setor em um dos parceiros comerciais.
                Os protocolos setoriais são instrumentos básicos deste Programa. Facilitam uma abertura negociada por setor e por produto, procurando atingir dois objetivos: a curto prazo, recuperar o nível de transações e corrigir desequilíbrios sistemáticos nos fluxos de comércio e, a longo prazo, criar um novo padrão de relacionamento entre as duas economias, que consolide seu papel de indutores do crescimento regional.
                Alem de estabelecer mecanismos progressivos de eliminação tarifária e de remoção de barreiras não tarifárias, propõem-se medidas como a formação de empresas binancionais e a criação de um fundo de investimentos, visando estimular a complementaridade produtiva.
                A renovação dos governos democráticos na Argentina e Brasil nos anos 90 promove uma reformulação ampla do PICE, a qual ocorre nem tanto por uma avaliação estrita de seus resultados, mas como uma das respostas ao quadro de asfixia econômica e financeira em que se encontravam ambos os países. (realizada pelos presidentes Menem e Collor).
                Esta decisão de acelerar o processo de formação de um mercado comum com o estabelecimento de calendários extremamente apertados é também uma forma de desconhecer as assimetrias entre os países envolvidos e, em consequência, as relações econômicas preexistentes.
Um Dilema Ainda não Resolvido
                Um processe de integração econômica entre vários países responde, sem dúvida, a uma decisão de tipo político que imprime determinado conteúdo ao projeto. Este último depende principalmente dos processos políticos internos de cada país, da condução de seus governos e da participação dos diferentes segmentos da sociedade civil. Daí que vários autores falam dos possíveis cenários ou opções que o processo de integração pode enfrentar.
                Neste sentido, deseja-se destacar que a possibilidade de atingir níveis crescentes de competitividade não depende exclusivamente dos esforços individuais dos agentes econômicos. Cada vez mais a experiência internacional torna-se central a ideia de “competitividade sistêmica” como base sólida para o desenvolvimento econômico.
                Conforme observado, pode-se concluir que o enfoque do avanço gradual por setores, que predominou no primeiro momento do processo de integração entre Argentina e Brasil, corresponderia basicamente à via de tipo industrialista. Pelo contrario, a inflexão produzida a partir de 1990 mostra que o novo esquema parece estar mais próximo da opção de comercialista, na qual o Estado aparece subordinado à lógica de mercado.

A nova divisão internacional do trabalho


A DES-ORDEM ECONÔMICA MUNDIAL: A NOVA DIVISÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO
            As mudanças ocorridas na economia nas ultimas décadas, podem demonstrar como o jogo de poder mundial está subordinado aos interesses do grande capital e das grandes corporações transnacionais, sem falar nos organismos internacionais que atuam como verdadeiros gerentes da economia global, em especial o capital financeiro, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional.
            Ernest Mandel, um dos teóricos de fundamentação marxista que melhor discutiu essa questão, afirma que: o andamento cíclico do modo de produção capitalista ocasionado pela concorrência manifesta-se pela expansão e contração sucessivas da produção de mercadorias e, consequentemente, da produção de mais valia.
            Constitui-se assim, uma nova divisão internacional do trabalho cuja espacialidade pode nos revelar muito, especialmente no que se refere ao poder de transformação das novas tecnologias, às novas formas de intervenção das grandes corporações e à desconstituição de sujeitos coletivos por meio da desconstrução da organização dos trabalhadores e outros grupos sociais.
            De acordo com a teoria dos ciclos, a periodização mais simples apresentada por L. Harris, que distingue três grandes etapas do capitalismo: o capitalismo concorrencial, o capitalismo monopolista e o capitalismo monopolista de Estado (para alguns, os dois últimos constituem o chamado imperialismo).
            Pouco a pouco começa a se desenhar um novo pacto entre o capital e o trabalho, pelo menos nos países industrializados. Era o fordismo com sua ideia de um “capitalismo popular”.
            O Plano Marshall pós Segunda Guerra, viria ensejar um modelo de intervenção supranacional, pois no lugar de as potencias imperialistas disputarem entre si os mercados, o que levará a guerras, buscavam-se: (1) reconstruir e desenvolver a arrasada Europa, (2) conter a expansão soviética que avançara sobre o Leste europeu, (3) apresentar-se como uma alternativa política contra a ascensão de grupos e partidos de esquerda.
            Após 1945, teremos os chamados anos dourados do capitalismo fordista, período que consagrou a denominada sociedade de consumo de massas.
            Desde fins da Segunda Guerra vem sendo gestado um novo padrão internacional de poder que se configura com a importância cada vez maior das grandes corporações empresariais transnacionais, em termos institucionais num conjunto de entidades supranacionais (como a ONU, FMI, BID e o Bird).
            Estava aberto, pois o caminho para uma financeirização cada vez maior da economia mundial. A partir desse momento, o dólar passa a ser o novo lastro que os países devem buscar, e somente um país, os EUA podem emitir essa moeda.
            O fordismo como acumulação baseada na intensificação do consumo e da produtividade (via métodos “fordistas” de trabalho) e na regulamentação monopolista, centralizadora, seria ultrapassado, ou melhor, passaria a conviver, a partir dos anos 1980, com o chamado pós fordismo ou capitalismo de acumulação flexível.
COMPARATIVO DA MODERNIDADE FORDISTA E PÓS MODERNIDADE FLEXÍVEL
MODERNIDADE FORDISTA
PÓS MODERNIDADE FLEXÍVEL
Hierarquia – Homogeneidade
Anarquia - Diversidade
Habitação Pública
Desabrigados
Capital Produtivo – Universalismo
Capital fictício - Localismo
Poder estatal - capital monopolista – sindicatos
financeirização - complexos corporativos empresariais - des-responsabilização social do Estado
Forte presença de sujeitos coletivos
Desconstituição dos sujeitos coletivos
Ética - Mercadoria-dinheiro
Estética - dinheiro contábil
Produção – Originalidade
Reprodução - Ecleticismo
Operário – Vanguardismo
Administrador - Comercialismo
 Centralização -  Totalização
Descentralização - Desconstrução
Sintese - Negociação Coletiva
Antítese - Contratos Locais
Produção em massa
Produção de Pequenos Lotes
Política de classes
Movimentos sociais, grupos de interesse
Trabalhador especializado
Trabalhador flexível
Reprodução mecânica
Reprodução eletrônica

            Segundo esses autores (em geral, cientistas políticos) a guerra, por meio da indústria bélica que a sustenta, seria o grande dínamo das inovações tecnológicas, o estímulo maior para o surgimento das novas tecnologias.
            Embora os EUA permaneçam como a grande potência econômica do planeta, visto como Estado-nação, em termos individuais, a liberalização do comércio e das finanças, aliada ao novo padrão tecnológico (aquilo que Milton Santos denominou de período e∕ou meio técnico científico informacional) deu forma a uma “fluidez” ou globalização do espaço planetário nunca antes vista.
A GLOBALIZAÇÃO ECONÔMICA NEOLIBERAL
            “Desterritorializador” (fluido) e globalizador inerente ao capitalismo:
·         A liberação de populações de seus territórios na realização da acumulação primitiva, criando um proletariado livre;
·         A unificação em torno do dinheiro, seu equivalente em geral, referencia quantitativa frente à qual, praticamente tudo passa a ser medido e avaliado;
·         O estabelecimento de um conjunto de leis “historicamente variáveis imanentes ao próprio funcionamento do capital”.
            Entretanto, é claro que o capitalismo não corresponde a um processo unilateral e cumulativo de “globalização”. (...) À medida que parece organizar-se gradativamente uma espécie de “território mundo” globalmente articulado, o capitalismo se reproduz contraditoriamente e, sobretudo, difunde a desigualdade, apropriando-se ou mesmo produzindo a diferenciação, a fim de expandir a lógica mercantil que lhe é inerente.
            A interferência periódica do Estado é sempre uma “faca de dois gumes” na consolidação da globalização capitalista, pela contradição que lhe é inerente entre as defesas de interesses públicos e de interesses privados, que conjuga abertura e fechamento de fronteiras, “estatismo” e liberalização econômica.
            O discurso da desterritorialização e, consequentemente, de uma globalização irrestrita num mundo efetivamente “sem fronteiras” vincula-se hoje, em grande parte, aos argumentos políticos daqueles que defendem o chamado projeto neoliberal.
            Durante o domínio do chamado Estado do bem-estar social ou Estado-previdência (nos países centrais capitalistas), a partir da Segunda Grande Guerra, o Estado atua também como um agente redistribuidor de renda, capaz de assegurar não apenas a ampliação do mercado de consumo pela elevação (relativa) dos salários, mas também alguns benefícios sociais pelos quais há muito vinham lutando os trabalhadores organizados.
            O Estado, como espécie de intermediário capaz de “pender a balança” para um ou outro lado, aparece como principal responsável pela políticas “reguladoras” dos conflitos entre o capital e o trabalho.
            Entretanto, nessa fase de globalização neoliberal, o Estado vai gradativamente perdendo força e deixando muito maior a liberdade para que as forças do mercado comandem a economia.
            A globalização econômica se desdobra em quatro formas ou dimensões: a comercial, a produtiva, a tecnológica e a financeira.
A DIVISAO TERRITORIAL DO TRABALHO E AS NOVAS DESIGUALDADES
            Antigas divisões territoriais do trabalho adquirem outra conformação, muito mais complexa. Inicialmente, a consideração dos diferentes setores da economia – primário, secundário e terciário, por exemplo.
            Dessa forma, a nova divisão internacional do trabalho passou a ser baseada não estritamente nos setores da economia por tipo de produto, mas nos níveis tecnológicos de produção, nas formas de gestão e nas relações de trabalho dominantes, o que inclui, é claro, o valor dos salários pagos aos trabalhadores.
            Podemos afirmar que hoje, a divisão territorial∕internacional do trabalho, pautada nos níveis tecnológicos da produção e nos correspondentes níveis de qualificação (e de exploração) da força de trabalho, permite diferenciar o espaço mundial identificando:
·         Espaços que detém o domínio do capital financeiro e dos investimentos na produção e∕ou o controle das tecnologias mais avançadas e da difusão de informações.
·         Espaços com certa independência financeira, em que predominam atividades econômicas com níveis intermediários.
·         Espaços com grande dependência do capital financeiro internacional, em que a produção é de baixo nível tecnológico.
            Num país com as dimensões e complexidade do Brasil, o mais justo é analisar não simplesmente a sua participação na divisão internacional do trabalho, mas também as especificidades de sua divisão inter-regional do trabalho.
            Nesta nova divisão do trabalho, comandada pela informação, pela biotecnologia e pelo capital financeiro, dois novos espaços são fundamentais: pelo lado da tecnologia, centros sofisticados de pesquisa (os chamados tecnopólos), capazes de pensar e∕ou produzir inovações tecnológicas e de qualificar permanentemente a força de trabalho; pelo lado do capital financeiro, distritos financeiros sofisticados no interior das principais “cidades globais”, e paraísos financeiros (ditos offshore) em pontos estratégicos, a fim de lavarem o dinheiro obtido em operações ilegais cada vez mais frequentes.
            Temos então, a grande importância adquirida pelo chamado “capital pensante”, que gera inclusive novas formas de exploração, não só da conhecida forma da “fuga de cérebros”, mas também pela contratação, a baixos salários, de pesquisadores trabalhando nos seus países de origem, como aconteceu com a Europa Oriental.
            Assim, apesar da crescente globalização e da dificuldade de identificar a “nacionalidade” da produção de uma empresa transnacional, a analise econômica pautada nas bases territoriais dos Estados não perdeu a importância, ainda mais se considerarmos que a maioria dos dados econômicos ainda é fornecida referente às economias nacionais.
            Essa nova era pode também ser considerada a era das desigualdades.
            Em suma, da precarização das relações de trabalho e a consequente marginalização ou exclusão de um numero crescente de pessoas, sem lugar no mapa da globalização, seja como massa política de manobra, seja como trabalhadores ou até mesmo, em situações mais extremas, como consumidores.
            Até mesmo entidades como a Organização Internacional do Trabalho reconhecem que a globalização acirrou as desigualdades, aumentando a distancia entre ricos e pobres. A abertura de mercados e novos acordos comerciais não garantiram a redistribuição da riqueza, mas a sua concentração. Apenas alguns países, justamente onde não foram aplicados os programas ortodoxos de abertura dos mercados, como a China, a Índia e a Coréia do Sul, conseguiram diminuir a miséria; no caso da China, porem , houve acentuado crescimento das desigualdades entre ricos e pobres.
            Outro indicador socioeconômico que reflete bem o nível de desigualdade planetário é o que se refere às condições de habitação, mediante o percentual de população favelada.